Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.
Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

O dedo tremente de uma mulher
Vai percorrendo a lista das baixas
No entardecer do primeiro dia de neve.
A casa é fria e a lista longa.
Todos os nossos nomes lá estão.
(1938 -2023)
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Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor de jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:

"O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem".

 

Carlos de Oliveira
foto
: Christoph Hilse

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
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Porque tem consciência da inutilidade de tantas
coisas
às vezes uma pessoa senta-se tranquilamente à sombra de
uma árvore – no verão –
e cala-se

(...)

 

 

 

 

 

 

 

Ángel González

foto: at

 

evocando Léona Delcourt
foto: Darren Holmes

Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Álvaro de Campos

"É espantoso o que uma cabeça oca pode conceber. É um perigo iminente uma cabeça vazia. Instava enchê-la de pensamentos, o mais depressa possível, antes que fosse tarde e ela própria gerasse ideias nascidas lá dentro, sem nenhuma relação com o que existisse cá fora."

Manuel de Lima

Malaquias ou a história de um homem barbaramente agredido, Ed. Estampa, 1972

foto: Radar360

O azul do céu encandeia
e o amarelo das flores aflige

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adolfo Luxúria Canibal

foto: at

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Fotos: Karl Blossfeldt

"As coisas que os líquenes comem
sapatos, adjetivos 
têm muita importância para os pulmões
da poesia"

Manoel de Barros

foto:at

"Murmur"

Richard Barnes

 

A explosão o fogo o rio de lava

no mar a natureza volátil do teu fim

no ar cinzas alvoroçadas prenunciam

o clima a mudar dentro de mim.

at

Todas as ruas são a mesma
se vives nela.

John Ash

foto: Lisette Model

 

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada: hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

 

Álvaro de Campos

 

foto: at

Fingimos que o amor não morre pelo medo de morrer com ele, na paisagem.

at

foto: Brian Kosoff

 

«A morte nunca morre. O tempo encarrega-se da reanimação consecutiva. O amor morre com frequência: umas vezes à nascença, outras devido à seca extrema, com frequência levado na tempestade.

A morte esconde-se em fotografias, nas janelas entaipadas, no nariz tantas vezes. Como não vive, não envelhece.

Está sempre disponível, é forte, concreta e fiável. Fingimos que o amor nunca morre porque somos dados ao espiritismo.»

 

 

 

 

Filipe Nunes Vicente

Amor e Ódio, Quetzal, 2008

foto: Gregory Crewdson

Os objectos são opacos
a toda a inquirição. Assemelham-se
à destruída presença da história,
aos estilhaços sem devolução precisa.
Abriu o armário: sapatos desirmanados
apodreciam lentamente, uns sobre os outros.
Regressou à imagem de horror banal:
a preto e branco montanhas de sapatos
após o extermínio

 

 

 

 

Luís Quintais

de Mais espesso que a água, Edições Cotovia, 2008


foto aqui

"Nunca fui muito de escrever mas a verdade é que durante o ano de 1977, escrevi um diário. Durou dois meses. Qual não foi o meu espanto quando descobri que um tal Bernfried Järvi, escreveu ao mesmo tempo um diário como o meu.

*

Deito-me e há um violoncelo dentro da minha cabeça
Mais ninguém ouve. Só eu sei quem me está a tocar.

*

Saímos do liceu às seis da tarde. Foram todos para casa de autocarro. Eu fui a pé a ver se me inspirava. Como não sei escrever poemas, fumei um maço de cigarros.

*

Ler um bom livro é a pior coisa que me pode acontecer. Quando um livro é mesmo bom, desapareço na minha insignificância.

*

Manhã cedo. Desconheço o meu rosto no espelho. Fecho os olhos, sombreio as pálpebras e corro para apanhar o autocarro.

*

Que me resta fazer? Tento dormir. Mas mergulhar no sono não me faz esquecer.

*

Percorria a rua Miguel Bombarda, ao fim da tarde, quando um telhado me caiu em cima. Uma nuvem de pássaros cobriu o céu. Sobrevivi às telhas. Difícil mesmo foi limpar as cagadelas.

*

No instante em que escrevo isto, estou à espera. Estou há tanto tempo à espera que até me esqueço. Estou muito longe. Não espero mais por mim.

*

Não me lembro do que sonhei a noite passada. E isso é mau. Porque era certamente um sonho bom. Os sonhos maus continuam vivos a manhã inteira.

*
Atravesso a rua com um saco carregado de nuvens. Se o saco tivesse maças, ou pêssegos ou laranjas sempre podia encher a barriga.

*

Uma borboleta voava e pousava, voava e pousava. Fim.

Bernfried Järvi

Outubro/Novembro de 1977"

Bernfried Järvi, escreveu pelo menos dois poemas e o diário dele continuou nos cadernos  publicados em 2019 por Rui Manuel Amaral 

imagem: Chema Mandoz

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.


Fernando Pessoa
in 'Cancioneiro'

foto: at

para a Filipa

Lothar Baumgarten

Binary Opposition, 1970

"Crónicas islandesas contam que em tempos viviam neste país homens vindos do oeste, que deixaram para trás crucifixos, sinos e outros artigos que tais, utilizados em práticas de feitiçaria. Em fontes latinas estão registados os nomes daqueles homens que das ilhas a Oeste navegaram até cá nos primórdios do papado.

O seu líder chamava-se Kólumkilli, o irlandês, um conhecido feiticeiro. Naquela altura a terra na Islândia era extremamente fértil. Mas quando os noruegueses se instalaram aqui, os feiticeiros do Oeste deixaram o país, e registos antigos dizem que, para se vingar, Kólumkilli amaldiçoou os novos habitantes, rogando que eles nunca ali gozassem de prosperidade, o que mais tarde veio a tornar-se realidade."

 

Halldór Laxness

o começo de Gente Independente, Cavalo de Ferro, 2007
foto: Desmond Cannon   

O céu não precisa de razões

 

at

"A planície que se estende até Haarlem é vista de cima, das dunas, é o que se costuma dizer, mas a impressão de vista aérea é tão acentuada que as dunas teriam que ser verdadeiras colinas ou mesmo uma serra pequena.

Na verdade, não foi numa duna que Ruysdael esteve a pintar, mas num cume artificial, imaginário, algures acima do mundo.

Só daí podia ver tudo, o vasto céu nublado que ocupa dois terços e todo o quadro, a cidade que, tirando a catedral de S. Bavon que se ergue acima de todas as casas, mais não é que uma prega do horizonte, a mancha escura dos arbustos e matas, a quinta no primeiro plano e o campo, radioso, onde tinham posto a corar lençóis brancos e onde andam a trabalhar, contei eu, umas sete ou oito figuras com menos de meio centímetro."

W. G. Sebald

Os Anéis de Saturno; Teorema, 2006

foto: cj

ver aqui uma série de grande categoria com poemas de Yehuda Amichai

 

Só um murmúrio
que é a voz do mar feita recordação.

Cesare Pavese

foto:at

Nenhum de nós sofre tanto como devia ou ama tanto como diz. O amor é a primeira mentira; a sabedoria a última.

Djuna Barnes

O Bosque da Noite; Relógio d'Água, 1987

foto:at

O mar rugia como um tigre.
O mar sussurrava aos ouvidos como um amigo a contar segredos.
O mar tilintava como moedinhas no bolso.
O mar troava como avalanches.
O mar soava como alguém a vomitar.
O mar era um silêncio de morte.
E entre os dois, entre o céu e o mar, estavam todos os ventos.

Yann Martel
A vida de Pi, Difel, 2004

 

fotos: at

O céu era invadido por grandes nuvens brancas.
O céu estava finamente encoberto.
O céu estava raiado por nuvens altas e finas que pareceiam uma meada de algodão esticada.
O céu era pintado...
O céu era muitas nuvens em muitos níveis, algumas espessas e opacas, outras que pareciam fumo.
O céu era uma densidade de nuvens de chuva escuras e tempestuosas que passavam sem deixar cair a chuva.
O céu era negro e cuspia chuva

Yann Martel
A vida de Pi, Difel, 2004

fotos: at

Meia volta e arfo
Meia volta outra emboscada

Subiram-me o pitch
ando às aranhas
alguém que,
talvez tu, me apanhasse
e eu me sentasse

primeiro no lancil
do passeio para descansar,
lá fora p'ra variar.

Vejo que ainda aí estás parado.
Com mãos nos bolsos,
mascas as variáveis dum poste encostado.

Recomponho-me num respiro,
ajeito a alça do vestido
e a jeito de desafio digo:

-Ai é em pé? Em pé é que é!

Levanto-me meio-soprano
Chego quase onde não convém

Tens uma placa mesmo no meio do peito que diz:
Proibido morder, arranhar, lamber e farejar.

Recuo, costas na cal
Tu mirada y la palavra que no sale

Senta!
e eu sentei.

Então fizeste-me uma festa.
p         a         u         s         a    

mas logo me ponho a lamber a pata
ou fico a olhar para ti com a língua de fora

(provavelmente a pensar num osso)

Marta Sales

foto: Thomas Ruff

"Claro que pode amar quem quiser. Mas talvez doravante deva guardar o seu amor para si, como uma pessoa guarda uma constipação ou um ataque de herpes para si, por uma questão de consideração pelos vizinhos"

J.M. Coetzee

O Homem Lento, Dom Quixote, 2008

imagem: Isa Genzken

Começa com uma pancada violenta, surpreendente e dolorosa. O sangue irrompe, os membros ficam deslassados, o corpo tomba como um boneco de madeira.

O espírito desliza, prestes a tombar. O homem acorda, sozinho, mais velho, tolhido, com uma perna a menos.

Numa perspectiva mais ampla, perder uma perna não é mais que um ensaio para perder tudo.

Slow Man é um livro estranhamente belo.

créditos: J.M. Coetzee, "O Homem Lento", Dom Quixote, 2008
imagem: Hermann Nitsch

"A arte é um animal. Passa longo tempo fechado em edifícios e casas, a olhar pela janela ou deixando-se aquecer controladamente pela a luz artificial. Até o mais radical ou rebelde acaba por ficar sob o teto, protegido. Devidamente mantido, quieto, silencioso. Preservado, às vezes, durante séculos.

A arte é, em geral, um animal doméstico. Talvez um gato. Um felino que ainda não perdeu totalmente o instinto predador. Nos úlimos tempos tem aparecido uma espécie que circula pela cidade, que aparece e desaparece, e deixa suspenso no ar o seu sorriso como o enigmático gato de Cheshire.

(...)

É um animal que salta ao nosso encontro em qualquer esquina. É um animal que nos torna um pouco menos domésticos."

 

 

 

 

 

 

 

Fietta Jarque

foto aqui

Fartei-me de te esperar. Atravessei-me em todas as tuas direcções. Andei para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, para que me encontrasses.

Tencionava dizer-te como te esperei para sempre. Decorei meia dúzia de frases de romance de cordel, dúzia e meia de palavras de faca e de alguidar para te impressionar.

Ansiava todo o dia ver-te aparecer ao longe (mesmo sabendo que o teu corpo é impossível). Tinha mesmo saudades tuas. Estou mesmo mortinha por te deixar.

 

 

 

 

 escrito a quatro mãos com o Eduardo

desenhos e colagem da Marta 

Escrevo cansada
os dedos a pedirem caminha
as pernas, as costas, os braços
a pedirem
um colchão de penas
onde cair.

Digo coisas apenas
com os pés doridos tropeço
nas palavras todas.
Podem ser muitos os caminhos
onde se cai sem saber como sair.

at
(créditos: David Esteves e Manuel de Freitas)


foto: Thomas Demand

Quero que morras de amor por mim, agora que eu já não morro de amor. Quero que morras por mim, agora que estou morto e já não posso morrer de amor por ti. Como um coração que morre por outro coração, quero que morras de amor por mim agora, como antes eu morria, quando ainda tinha coração e podia sentir e não tinha ainda morrido de amor por ti. Agora que tenho o coração morto, quero-te assim, morrendo também de amor por mim.

 

 

 

Alberto Tugues

El caso de una sangre derramada, 2008

tradução: at

foto: André Kertész

 

creio em giestas nos poemas
quando as manhãs se aproximam do Verão 

 

 

 

 

 

 

 

Sandra Costa

foto:at

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.

 
foto: DrGica

Havia dias em que a alma lhe caía, ficava com a alma baixa, entre os pés, quase a rasar o chão. A alma descaída sob suspeita, dizia.

Nesses dias, um mau olhar, uma falta de atenção ou uma frase qualquer, um adjectivo a mais, algo inesperado, em suma, podia estropiá-lo completamente e dar cabo dele e da sua alma, no meio da rua.

Isto vinha a acontecer desde que lhe contaram uma história, a sua própria história, aquela que ele recordava ter vivido de outra maneira, quase feliz.

Mas agora já sabe, já lhe contaram como essa história de amor se estropiou antes do fim, ao longo dos últimos meses. Quando ambos se separaram e ele rastejou até à praia dos mutilados, ignorava completamente o que mais tarde lhe contariam com todos os detalhes: que já havia indícios de manchas entre os dedos daquele amor, muito antes de acabar mal.

Por isso agora, diz que há dias em que a alma lhe cai ao chão e lhe fica entre os pés, embaraçada nos atacadores dos sapatos.

Alberto Tugues

El caso de una sangre derramada

Moment Angular, emboscall,2008

tradução; at


foto: Debbie Fleming Caffery

um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa
sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa
pode ter
uma mulher pode refazer a cada dia
o seu homem
e deitá-lo
sentá-lo
aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana
entre as linhas de coser e
as cortininhas de chita que o tempo
embolorece. há um homem
a dormir nesta cama
muito depois de o homem
partir.

Marta Caldeira

na criatura
foto: Imogen Cunningham

como pedras
soltas
entre dentes
as palavras
tropeçam
na língua
prendem-me
a voz
não digo
nada
cuspo vocábulos
redondos
solto sílabas
duras
como pedras.

 

at

foto: Ann Hamilton

Há algo de assustador nos fantasmas das casas novas:
Os fantasmas das casas velhas já são maus quanto baste:
Mas os fantasmas das casas novas são terríveis.
A grande novidade destas novas e desoladas casas
Já seria bem terrível sem os fantasmas.
Mas os fantasmas também são novos.
Raparigas tristes com blusas azuis
E pessoas nos seus assados de Domingo
Sob a grande luz do dia, dentro destas casas novas
Em ruas onde os homens varrem o vidro partido.

 

 

 

 

Malcolm Lowry

As cantigas e outros poemas do álcool e do mar
Assírio & Alvim, 2008 tradução: José Agostinho Baptista

foto: Richard Koenig

nunca percebi muito de vozes
mas se te ouço

mesmo quando é difícil entender
cada palavra

faço do corpo um espaço de silêncio

 

 

 

 

Maria Sousa

na Criatura

Foto: Francesca Woodman 

Acordar, ser na manhã de Abril
A brancura desta cerejeira;
Arder das folhas à raiz,
Dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos,
O vento, a luz ou o que quer que seja;
Sentir o tempo, fibra a fibra,
A tecer o coração duma cereja

 

 

 

 

 

As Mãos e os Frutos
foto:at

Bato no fundo,
Bato nas pedras do fundo.

Julgava tudo quieto
e vai a corda parte,
caio por aqui abaixo,
digo, até ao fundo.

Levanto os olhos: ai
aquele brando som
que me chega tão cavo;
ai, digo, e estou no fundo.

Bato, bato nas pedras.
Mexo-me pouco. Magoa
respirar.

No fundo, limos, pedras,
sons que se escapam nos...

Limos, por aqui abaixo.

 

 

Fernando Assis Pacheco

foto: Alex Kirkbride

"E ele, sem parar, continuava a olhar para a sombra, lá ao longe, onde devia haver uma saída salvadora."

 

 

 

 

 

 

Villiers de L'Isle-Adam

A Tortura da Esperança
A Biblioteca de Babel- Colecção de literatura fantástica dirigida por Jorge Luis Borges. Ed. Presença, 2007

foto: di

Amo a vida simplice das coisas.
Quanta paixão vi desfolhar-se, a pouco e pouco,
por cada coisa que passa.
Mas tu não me compreendes e sorris.
E julgas que estou doente.

Sergio Corazzini

tradução: Jorge de Sena
foto: Carlos Veríssimo (d'aqui)

 

"Sofrimentos, dúvidas e alegrias, a inocência e a confusão da infância, o cinismo e a confusão da idade adulta, são tratados com uma ironia aguçada e um humor desarmante.

E longe de ser um lamento sentimental ou previsível, Persépolis recusa o trivial ou o moralismo. E se tem alguma ideologia, é a da integridade pessoal nas relações humanas."

Rita

Algo
frio está no ar,
uma aura de gelo
e apatia
Todo o dia construí
uma vida inteira e agora
o sol afunda-se para
a desfazer.
O horizonte sangra
e chupa o seu polegar
o pequeno polegar vermelho
desaparece.
E eu interrogo-me sobre
esta vida inteira comigo,
este sonho que estou a viver.
E podia comer o céu
como uma maçã
mas prefiro
perguntar à primeira estrela:
porque estou aqui?
porque vivo nesta casa?
quem é o responsável?
hã?

 

Anne Sexton

tradução: Maria Sousa

foto: at

A morte
grita
no bosque
com mil
bocas
geladas.
A morte
dança
esta valsa
com ondas
azuis
de desejo.
A morte
pinta
os telhados
com lírios
brancos
de pranto.
A morte
toca
esta valsa.
Eu quero
morrer
nos teus braços.

 

 

créditos: G. Lorca e L.Cohen
foto: Cristopher Voelker

“Vamos voltar a fingir que a vida é uma substância sólida, com a forma de um globo, e que a podemos fazer girar por entre os dedos.

Vamos fingir ser capazes de elaborar uma história simples e lógica, de forma a que, uma vez encerrado um assunto – por exemplo, o amor – possamos avançar de forma ordenada para o ponto seguinte.”

 

 

 

 

Virgínia Woolf

As Ondas
foto: Sarah Hobbs

“Apesar de tudo, a vida é agradável, tolera-se. À segunda, segue-se a terça e depois a quarta. A mente constrói anéis; a identidade torna-se mais robusta; a dor é absorvida no processo de crescimento.

Sempre a abrir-se e a fechar-se, zumbindo cada vez mais, a velocidade e a febre da juventude são aproveitadas para o trabalho, até o ser nada mais parecer do que o mecanismo de um relógio.

Com que velocidade a corrente segue de Janeiro a Dezembro! Somos arrastados por tudo aquilo que se nos tornou tão familiar que não chega a projectar sombra. Flutuamos, flutuamos...”

 

 

 

 

Virginia Woolf

As Ondas

foto: at

 

Quando estou nas grandes cidades europeias, o meu pesadelo são os filhos dos mendigos.

Percebes do que estou a falar? As mulheres indianas ou turcas, sentadas nas ruas ou nas estações do metro, com bebés ou crianças pequenas ao colo.

Já reparei que as crianças estão quases sempre a dormir. Em Londres, Berlim ou Roma. Desconfio que as mulheres as adormecem de propósito, drogam-nas, porque uma criança adormecida parece mais infeliz, e isso é bom para o “negócio”...

Em Paris, em frente do meu hotel habitual, vi uma vez uma mulher turca com um bebé a dormir, e no dia seguinte mudei de hotel.

Não é apenas a crueldade que me deprime, mas principalmente a ideia de que aquelas crianças passam a vida a dormir. Pensar que há pelo menos uma criança (e há centenas delas), que durante anos, se calhar mesmo durante toda a infância, vive em Londres ou na maravilhosa Florença sem praticamente a ver. Que se limita a ouvir, durante o sono, os passos das pessoas, o ruído dos carros e o pulsar da grande cidade, e quando acorda está de novo no buraco miserável onde vive.

Quando passo junto de uma dessas mulheres, dou sempre alguma coisa, e ao mesmo tempo assobio com força uma bonita melodia, uma melodia alegre.

David Grossman

Em carne viva, Campo das Letras, 2007

 

 

Quando morava em Nápoles, havia, à porta do meu palácio, uma pedinte a quem eu lançava moedas, antes de subir para o carro. Um dia, surpreendido por nunca me agradecerem, olhei para a pedinte.

Ora, como para ela olhasse, vi que o que tomara por uma pedinte era afinal um caixote de madeira pintado de verde que continha terra vermelha e umas quantas bananas meio podres...

 

 

 

 

 

Max Jacob

O copo dos dados, Estampa, 1974


tradução: Luiza Neto Jorge
foto: Donn Anning Jones