III

O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um arco de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
em qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.

Luís Quintais

Canto Onde, Cotovia, 2006
foto: André Bonirre

"Não Ser e Ser, saindo de um fundo único, apenas se diferenciam pelos nomes.

Esse fundo único chama-se Obscuridade. – Obscurecer essa obscuridade, eis a porta de toda a maravilha."

 

 

 

Lao Tzi (Tao Te Ching)

Foto: John Brown

linhas profundas de sombra

onde se abrigam pardais, sonhos e andorinhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

blue

foto:at

 

O raio da bomba era trinta centímetros
e o diâmetro do seu raio efectivo cerca de sete metros,
com quatro mortos e onze feridos.
E em volta deles, num largo círculo
de dor e tempo, espalham-se dois hospitais
e um cemitério. Mas a mulher jovem
que foi sepultada na cidade de onde veio,
à distância de mais de cem quilómetros,
alarga o círculo consideravelmente,
e o homem solitário chorando a sua morte
na costa distante de um país longínquo
inclui o mundo inteiro no círculo.
E nem menciono o uivo dos órfãos
que alcança além do reino de Deus,
fazendo um círculo sem fim e sem Deus.

 

 

 

Yehuda Amichai

imagem: Cornelia Parker 

ruas
convidam ao estrondo
de uma fome sem saída

palavras secas
olhar embotado
e a mão
que vacila sintomas

aqui dentro
o exílio

paredes
sem promessas

toda quinta
adio presságios –
com a nova dosagem

 

Silvio Pedro
in "Inventário Afetivo"

foto:at

 

Não cheguei a dizer a palavra que pediste.
O nada que roubámos à cauda de outros passos.
Agora tudo está diferente.
Som algum pontua o chão da noite,
os suspiros há muito deixaram de ser perene abrigo.
Limitei-me a perseguir sombras certeiras,
vozes, afinal, que decidimos abandonar.
Sabes do que falo. E isso bastará.

 

 

 

 

Ricardo Gil Soeiro


imagem: Aus dem Leben der Marionetten, 1980, Ingmar Bergman

 

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario

 

 

 

 

 

 

 

Nicanor Parra

foto:at

 

 

Deep in the forest there’s an unexpected clearing that can be reached only by someone who has lost his way.

The clearing is enclosed in a forest that is choking itself. Black trunks with the ashy beard stubble of lichen. The trees are tangled tightly together and are dead right up to the tops, where a few solitary green twigs touch the light. Beneath them: shadow brooding on shadow, and the swamp growing.

 

 

 

 

 

 

Tomas Tranströmer

foto: at

 

Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias.

 

Rui Miguel Ribeiro

fotograma Floris Neususs

na

 

 

Ser a brisa que nos toca,
desprendida e liberta.

Ser a folha que cai
do seu trono, livre.

Ser a estela que dorme,
oblíqua, na floresta.

Ser a sombra suspensa
entre nós e as coisas.

 

 

 

João Rui de Sousa


foto:at

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
(...)

 

 

 

 

 

 

Dylan Thomas

foto:at

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A árvore

nua

de peito amplo

retira da sombra da noite
a ciência do manto

 

 

 

 

Maria Azenha

foto: at

 

Lavar os olhos

na luz aguda.

 

 

 

 

 

Augusto Contador Borges


fotografia: kiasma

Je rêve des quatre éléments, terre, eau, feu, air.

Je rêve du Bien et du Mal.

Et la terre, l´eau, le feu, l´air, le Bien et le Mal s´entremêlent et deviennent
l´Essentiel.

(...)

 

 

 

 

 

 

Hans Arp

foto: at

 

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

 

 

 

António Franco Alexandre

foto:at

Não tenho nada para dizer
não tenho pressa
nada se repete ao encontro do meu olhar
assim percorro a distância entre mim e o nada
abandonando-me ao instante e ao seu silêncio
enquanto o mar, ao longe, inexpressivo
me contempla
e da janela eu as espreito, luz e sombra
devagar pelo meu quarto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rui Machado


foto: Gerald Van der Kaap

 

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

 

 

Carlos Alberto Machado


foto: DrGica

A selva escura, vejo-a agora nítida aos 40.
Numa antecipação do caminho que não meço
e que se abre de tão denso à minha frente,
numa escuridão que é apenas ignorância,
despropósito, aventura 
- certeira morte em incerto tempo.

 

 

 

 

Luís Quintais

foto: Agrafo

 

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

 

Dinis Machado

Foto: Florian Beckers

talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música

 

 

 

Herberto Helder

foto: c.j.

 

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

 

 

 

Carlos de Oliveira

foto: Alberto García-Alix

Olhei o homem e dentro estava ainda
qualquer coisa que da sombra me espreitava.
Era um espelho, como um céu de noite
em que as estrelas são tantas e pesam sobre ti,
e te espiam e, de facto, não te vêem,
ficam no escuro como pedras sem lembranças,
mas estão lá, qual memória da vida,
e tu és um sopro do teu ser longínquo...
Procurei no espelho, e quase lá no fundo
estava outro qualquer que me buscava,
alguém que sofria a sua própria dor,
e eu já não era nada, era só a história
que não se via já atrás do espelho.

 

 

 

 

Franco Loi


foto: Sylvain Lagarde

 

Explicar a manhã
é anular-lhe a luz

e apagar todo o silêncio
que existe na poesia.

 

 

 

 

 

Sandra Costa

foto: at

 

Esquecer alguém é como
esquecer-se de apagar a luz da entrada:
no dia seguinte continua acesa,

depois é a luz que nos faz lembrar.

 

 

 

 

 

Yehuda Amichai

versão:at (a partir de duas traduções)
foto: Kiasma

(...)

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

 

 

 

 

Cesare Pavese

 

foto: at

Traz-me um girassol para que o transplante
no meu árido terreno
e mostre todo o dia
ao espelho azul do céu
a ansiedade do teu rosto
amarelento

Tendem à claridade as coisas obscuras
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas ou de músicas. Desaparecer
é então a dita das ditas

Traz-me tu a planta que conduz
aonde crescem loiras transparências
e se evapora a vida como essência
Traz-me o girassol de enlouquecidas luzes.

 

Eugenio Montale


Foto: Carol Watson

A luz é símbolo e agente de pureza. Onde a luz não tem nada a fazer, nada a unir ou nada a separar, passa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Novalis

foto: at

Nada, nada mais amei,
só estas colinas distantes.

Nos tempos sem luz
uniram-se ao contorno
dos olhos e prometeram,
como os caminhos nos contos de fadas,

à minha única manhã
um outro dia.

 

 

 

 

Hans-Ulrich Treichel

foto: at

 

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

 

 

 

 

 

 

 

 

Daniel Faria

Foto: Blue 

odas as noites não saber

em que hora parar
em que degrau de sombra

largar o recado para o nada

que nos queima
as mãos

 

 

 

 

gil t. sousa

foto: at

(...)

Não faço ideia do que irá acontecer
ou onde se manifestará a dor.
Ainda estamos na Primavera, e a Primavera tem uma luz curva.
As imagens da Primavera são feitas de cristal e não se podem relembrar.
Haverá sofrimento, mas tu sabes como perduadi-lo.
Haverá recordações, mas podem ser afastadas.
Haverá o teu coração ainda a bater
no vento que não parou de soprar em direcção a Oeste,
E tu darás um sinal. Alguém o verá?

(...)

 

 

 

 

 

Paul Bowles

foto: Ewa Brzozowska

 

Eu gosto da tua cara contra o fundo
circunstancial, ocupas o espaço por onde a rua
se intromete, as tuas pernas magras no passeio
como as de um fantoche que só mexe os braços.

Ao canto uma árvore fazia sombra pequena
na desconversa. Estavas mais ou menos
a dizer: nenhum futuro neste sofrimento.
O teu melhor ângulo.

 

 

 

 

 

Rui Pires Cabral


foto: Geoffroy Demarquet

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

 

 

 

 

Dante Alighieri


foto: Eduardo Basto

De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

 

Nuno Júdice

foto: Gottfried Helnwein

Esquece o rude mar invindimável

Pois aqueles que bebem os seus abismos

são os afogados.

 

 

 

 

 

Malcolm Lowry


foto: Clifford Ross

 

Elas têm o deslizar árctico pensativo
enquanto descem lentamente do céu
com um hahaha mas também com o
balir rápido e metediço das cabras.

Ficam tamto tempo no mesmo sítio
que as suas sombras se colam aos rochedos.

Ao anoitecer com o chão ainda quente,
quando só o mar ainda tem luz, elas saltam
da falésia luminosa como centelhas duma fogueira.

 

 

 

Judith Herzberg

foto:at