Fazemos queimadas com os restos do ano.

Anoitecemos tontos de fumo à espera da manhã clara.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

at

 foto : Debbie Fleming Caffery

 

De noite não escrevo cartas,
qualquer que seja a luz, para onde quer que seja.
E já não me assusta o elevador
vertiginoso, desde que o sono
me habituou à queda.

Na luz do fim da tarde agora brilha
para sempre a minha varanda amarela.
Campos salgados, colinas esburacadas,
já não me assustais.

Como se fosse a minha vida,
fecho as janelas, vou comendo
pão, poupo energia.

 

Hans-Ulrich Treichel

como se fosse a minha vida

 

foto: Steve Johnson

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade

na leitura partilhada
foto: cj

I can’t tell you my name:
You don’t believe I have one

I can’t warn you this boat is falling
You planned it that way

You’ve never had a face
But you know that appeals to me

You are old enough to be my
Skeleton: you know that also.

I can’t tell you I don’t want you
The sea is on your side

You have the earth’s nets
I have only a pair of scissors.

When I look for you I find
Water or moving shadows

There is no way I can lose you
When you are lost already.

Margaret Atwood
foto: Faye Pekas

hoje o sol tombou pardacento numa sombra de silêncio espesso

at

 

Posso fotografar o céu
mutante
Fixar instantes
sublimes
Agarrar raios de sol
fugazes
Eternizar nuvens
errantes
Guardar sombras
dispersas

 

Depois
Posso olhar céu fotografado
E deixá-lo invadir o meu olhar
Pleno de possibilidade

 

at

O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.

E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um arco de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
em qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.

 

Luís Quintais

foto: André Bonirre

"Não Ser e Ser, saindo de um fundo único, apenas se diferenciam pelos nomes.

Esse fundo único chama-se Obscuridade. – Obscurecer essa obscuridade, eis a porta de toda a maravilha."

 

 

 

Lao Tzi (Tao Te Ching)

Foto: John Brown

linhas profundas de sombra

onde se abrigam pardais, sonhos e andorinhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

blue

foto:at

 

O raio da bomba era trinta centímetros
e o diâmetro do seu raio efectivo cerca de sete metros,
com quatro mortos e onze feridos.
E em volta deles, num largo círculo
de dor e tempo, espalham-se dois hospitais
e um cemitério. Mas a mulher jovem
que foi sepultada na cidade de onde veio,
à distância de mais de cem quilómetros,
alarga o círculo consideravelmente,
e o homem solitário chorando a sua morte
na costa distante de um país longínquo
inclui o mundo inteiro no círculo.
E nem menciono o uivo dos órfãos
que alcança além do reino de Deus,
fazendo um círculo sem fim e sem Deus.

 

 

 

Yehuda Amichai

imagem: Cornelia Parker 

ruas
convidam ao estrondo
de uma fome sem saída

palavras secas
olhar embotado
e a mão
que vacila sintomas

aqui dentro
o exílio

paredes
sem promessas

toda quinta
adio presságios –
com a nova dosagem

 

Silvio Pedro
in "Inventário Afetivo"

foto:at

 

Não cheguei a dizer a palavra que pediste.
O nada que roubámos à cauda de outros passos.
Agora tudo está diferente.
Som algum pontua o chão da noite,
os suspiros há muito deixaram de ser perene abrigo.
Limitei-me a perseguir sombras certeiras,
vozes, afinal, que decidimos abandonar.
Sabes do que falo. E isso bastará.

 

 

 

 

Ricardo Gil Soeiro


imagem: Aus dem Leben der Marionetten, 1980, Ingmar Bergman

 

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario

 

 

 

 

 

 

 

Nicanor Parra

foto:at

 

 

Deep in the forest there’s an unexpected clearing that can be reached only by someone who has lost his way.

The clearing is enclosed in a forest that is choking itself. Black trunks with the ashy beard stubble of lichen. The trees are tangled tightly together and are dead right up to the tops, where a few solitary green twigs touch the light. Beneath them: shadow brooding on shadow, and the swamp growing.

 

 

 

 

 

 

Tomas Tranströmer

foto: at

 

Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias.

 

Rui Miguel Ribeiro

fotograma Floris Neususs

na

 

 

Ser a brisa que nos toca,
desprendida e liberta.

Ser a folha que cai
do seu trono, livre.

Ser a estela que dorme,
oblíqua, na floresta.

Ser a sombra suspensa
entre nós e as coisas.

 

 

 

João Rui de Sousa


foto:at

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
(...)

 

 

 

 

 

 

Dylan Thomas

foto:at

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A árvore

nua

de peito amplo

retira da sombra da noite
a ciência do manto

 

 

 

 

Maria Azenha

foto: at

 

Lavar os olhos

na luz aguda.

 

 

 

 

 

Augusto Contador Borges


fotografia: kiasma

Je rêve des quatre éléments, terre, eau, feu, air.

Je rêve du Bien et du Mal.

Et la terre, l´eau, le feu, l´air, le Bien et le Mal s´entremêlent et deviennent
l´Essentiel.

(...)

 

 

 

 

 

 

Hans Arp

foto: at

 

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

 

 

 

António Franco Alexandre

foto:at

Não tenho nada para dizer
não tenho pressa
nada se repete ao encontro do meu olhar
assim percorro a distância entre mim e o nada
abandonando-me ao instante e ao seu silêncio
enquanto o mar, ao longe, inexpressivo
me contempla
e da janela eu as espreito, luz e sombra
devagar pelo meu quarto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rui Machado


foto: Gerald Van der Kaap

 

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

 

 

Carlos Alberto Machado


foto: DrGica

A selva escura, vejo-a agora nítida aos 40.
Numa antecipação do caminho que não meço
e que se abre de tão denso à minha frente,
numa escuridão que é apenas ignorância,
despropósito, aventura 
- certeira morte em incerto tempo.

 

 

 

 

Luís Quintais

foto: Agrafo

 

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

 

Dinis Machado

Foto: Florian Beckers

talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música

 

 

 

Herberto Helder

foto: c.j.

 

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

 

 

 

Carlos de Oliveira

foto: Alberto García-Alix

Olhei o homem e dentro estava ainda
qualquer coisa que da sombra me espreitava.
Era um espelho, como um céu de noite
em que as estrelas são tantas e pesam sobre ti,
e te espiam e, de facto, não te vêem,
ficam no escuro como pedras sem lembranças,
mas estão lá, qual memória da vida,
e tu és um sopro do teu ser longínquo...
Procurei no espelho, e quase lá no fundo
estava outro qualquer que me buscava,
alguém que sofria a sua própria dor,
e eu já não era nada, era só a história
que não se via já atrás do espelho.

 

 

 

 

Franco Loi


foto: Sylvain Lagarde

 

Explicar a manhã
é anular-lhe a luz

e apagar todo o silêncio
que existe na poesia.

 

 

 

 

 

Sandra Costa

foto: at

 

Esquecer alguém é como
esquecer-se de apagar a luz da entrada:
no dia seguinte continua acesa,

depois é a luz que nos faz lembrar.

 

 

 

 

 

Yehuda Amichai

versão:at (a partir de duas traduções)
foto: Kiasma

(...)

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

 

 

 

 

Cesare Pavese

 

foto: at

Traz-me um girassol para que o transplante
no meu árido terreno
e mostre todo o dia
ao espelho azul do céu
a ansiedade do teu rosto
amarelento

Tendem à claridade as coisas obscuras
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas ou de músicas. Desaparecer
é então a dita das ditas

Traz-me tu a planta que conduz
aonde crescem loiras transparências
e se evapora a vida como essência
Traz-me o girassol de enlouquecidas luzes.

 

Eugenio Montale


Foto: Carol Watson

A luz é símbolo e agente de pureza. Onde a luz não tem nada a fazer, nada a unir ou nada a separar, passa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Novalis

foto: at

Nada, nada mais amei,
só estas colinas distantes.

Nos tempos sem luz
uniram-se ao contorno
dos olhos e prometeram,
como os caminhos nos contos de fadas,

à minha única manhã
um outro dia.

 

 

 

 

Hans-Ulrich Treichel

foto: at

 

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

 

 

 

 

 

 

 

 

Daniel Faria

Foto: Blue 

odas as noites não saber

em que hora parar
em que degrau de sombra

largar o recado para o nada

que nos queima
as mãos

 

 

 

 

gil t. sousa

foto: at