Ángel González

Ángel González nasceu em 1925 em Oviedo. Tinha 11 anos quando começou a Guerra Civil Espanhola. Aos 19 anos foi-lhe diagnosticada tuberculose e passou três anos num sanatório nas montanhas de León, onde começou a ler poesia. Posteriormente estudou Direito na Universidade de Oviedo.

Em 1955 publicou o seu primeiro livro de poesia, Áspero mundo. Em 1972 recebeu um convite da Universidade do Novo México onde passou a dar aulas de Literatura espanhola. Em 1996 foi eleito como membro da Royal Academy for the Spanish Language.

Foi galardoado com vários prémios. Os seus poemas encontram-se traduzidos em diversos idiomas. Em Portugal a «Fenda» editou o livro «Tratado de Urbanismo», em 2001, com tradução de Helder Moura Pereira. A sua poesia é dominada por temas como a história, a política, o amor e a música. Mesmo quando o tom é pessimista, existe subjacente uma leve ironia.

Ángel González morreu em Madrid, no dia 12 de Janeiro de 2008.

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  Fotografía de Luis Montoto

Poemas

Muerte En El Olvido

Yo sé que existo
Porque tú me imaginas.

Soy alto porque tú me crees
Alto, y limpio porque tú me miras
Con buenos ojos,
Con mirada limpia.

Tu pensamiento me hace
Inteligente, y en tu sencilla
Ternura, yo soy también sencillo
Y bondadoso.

Pero si tú me olvidas
Quedaré muerto sin que nadie
Lo sepa. Verán viva
Mi carne, pero será otro hombre
Oscuro, torpe, malo el que la habita.

Cumpleaños De Amor

¿Cómo seré yo
Cuando no sea yo?
Cuando el tiempo
Haya modificado mi estructura,
Y mi cuerpo sea otro,
Otra mi sangre,
Otros mis ojos y otros mis cabellos.
Pensaré en ti, tal vez.
Seguramente,
Mis sucesivos cuerpos
Prolongándome, vivo, hacia la muerte
Se pasarán de mano en mano,
De corazón a corazón,
De carne a carne,
El elemento misterioso
Que determina mi tristeza
Cuando te vas,
Que me impulsa a buscarte ciegamente,
Que me lleva a tu lado
Sin remedio:
Lo que la gente llama amor, en suma.
Y los ojos
Qué importa que no sean estos ojos
Te seguirán a donde vayas, fieles.

Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo Menos cierto, confuso,
Disolviéndome en aire
Cotidiano, burdo
Jirón de mí, deshilachado
Y roto por los puños.

Yo comprendo: he vivido
Un año más, y eso es muy duro.
¡Mover el corazón todos los días
Casi cien veces por minuto!.

Para vivir un año es necesario
Morirse muchas veces mucho.

Esto No Es Nada

Si tuviésemos la fuerza suficiente
Para apretar como es debido un trozo de madera
Sólo nos quedaría entre las manos
Un poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
Para presionar con toda la dureza
Esa tierra, sólo nos quedaría
Entre las manos un poco de agua.
Y si fuese posible aún
Oprimir el agua,
Ya no nos quedaría entre las manos
Nada.

É algo mais que o dia o que morre esta tarde?
O vento,
- que leva ele,
que aromas arrebata?
Desatadas de súbito as folhas das árvores
cegas vão pelo céu.
Pássaros altos atravessam, adiantam-se
à luz que os guia.
Sombria claridade
será já em outro sítio
- só por um instante –
madrugada.

Com bandeiras de fumo alguém me avisa:

- Olha bem tudo isto;
isto que passa
não voltará jamais
e é como se não tivesse nunca sido

efémera matéria de tua vida.

 

tradução: José Bento

em Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro; Assírio & Alvim, 2001

Inventário de Lugares Propícios ao Amor

São poucos.
A primavera tem muito prestígio, mas
é melhor o verão.
E também essas frestas que o outono
forma quando interfere com os domingos
em algumas cidades
já de si amarelas como bananas.
O inverno elimina muitos sítios:
gonzos de portas orientadas a norte,
margens de rios,
bancos de jardins.
Os contrafortes exteriores
das velhas igrejas
deixam às vezes vãos
a utilizar, ainda que a neve caia.
Mas desenganemo-nos: as baixas
temperaturas e os ventos húmidos
dificultam tudo.
As leis, além do mais, proíbem
as carícias (à excepção
de determinadas zonas epidérmicas
sem qualquer interesse -
em crianças, cães e outros animais)
e "não tocar, perigo de ignomínia"
pode ler-se em milhares de olhares.
Para onde fugir, então?
Por todo o lado olhos de viés,
córneas torturadas,
implacáveis pupilas,
retinas reticentes,
vigiam, desconfiam, ameaçam.
Resta talvez o recurso de andar sozinho,
de esvaziar a alma de ternura
e enchê-la de fastio e indiferença,
neste tempo hostil, propício ao ódio.

Soneto Para Cantar Uma Ausência

As horas passam, pesam lentamente
vazias de ti, cheias da tua memória.
A tua ausência rompe o fio da minha história,
isola como um fosso este presente.

deixando-me indefeso e inocente
entre a espada afiada da glória
de ter-te amado ontem, e a ilusória
esperança de amar-te eternamente.

Não dirijo a minha vida, e o futuro
apresenta-se inseguro, turvo, incerto.
Atenho-me só a ti, que não te tens.

Inclino-me sobre ti, débil muro
das minhas lamentações: arruinado, aberto,
fendido dique no qual me conténs.

Canção de Inverno e de  Verão

Quando é Inverno no Mar do Norte
é verão em Valparaíso.
Os barcos fazem soar as suas sirenes ao entrar no
porto de Bremen com bandeiras de névoa e de
gelo nos seus cabos,
enquanto as balandras batidas pelo sol arrastam pela
superfície do Pacífico Sul belas banhistas.
Isso sucede ao mesmo tempo,
mas jamais no mesmo dia.
Porque quando é dia no Mar do Norte
- brumas e sombras absorvendo restos
de uma suja luz –
é noite em Valparaíso
- rutilantes estrelas lançando afiados dardos
às ondas adormecidas.

Como duvidar de que nos quisemos,
que me perseguia o teu pensamento
e a tua voz me procurava – por trás.
muito perto ia a minha boca.
Quisemo-nos. é certo, e eu não sei quanto:
primaveras, verões, sóis, luas.

Contudo jamais no mesmo dia.

Cidade zero

Uma revolução.

Depois, uma guerra.

Naqueles dois anos - que eram
a quinta parte de toda a minha vida ?
eu havia experimentado sensações distintas.

Imaginei mais tarde
o que é a luta na qualidade de homem.
Mas para mim, criança, a guerra era apenas:

suspensão das aulas na escola,
Isabelita em cuecas na cave,
cemitérios de automóveis, andares
abandonados, fome indescritível,
sangue descoberto
na terra ou nas pedras da calçada,
um terror que durava
o mesmo que o frágil rumor dos vidros
depois da explosão,
e a quase incompreensível
dor dos adultos,
suas lágrimas, seu medo,
sua ira sufocada,
que, por alguma ponta,
entrava na minha alma
para desvanecer-se logo, rapidamente,
perante um dos muitos
prodígios quotidianos: descobrir
uma bala ainda quente,
o incêndio
de um edifício próximo,
os restos de um saque
-papéis e retratos
no meio da rua...
Tudo passou,
é tudo confuso agora, tudo
menos aquilo que apenas entendia
naquele tempo
e que, anos mais tarde,
ressurgiu dentro de mim, então para sempre:
este medo difuso,
esta ira repentina,
estas imprevisíveis
e verdadeiras vontades de chorar.

tradução: Helder Moura Pereira

de Tratado de Urbanismo, Fenda, 2001

A Susana Rivera

Quise mirar el mundo con tus ojos
ilusionados, nuevos,
verdes en su fondo
como la primavera.
Entré en tu cuerpo lleno de esperanza
para admirar tanto prodigio desde
el claro mirador de tus pupilas.
Y fuiste tú la que acabaste viendo
el fracaso del mundo con las mías.

lido no El País no dia 12-01-08

El otoño se acerca con muy poco ruido:
apagadas cigarras, unos grillos apenas,
defiendem el reducto
de un verano obstinado en perpetuarse,
cuya suntuosa cola aún brilla hacia el oeste.
Se diría que aquí no pasa nada,
pero un silencio súbito ilumina el prodigio:
ha pasado
un ángel
que se llamaba luz, o fuego, o vida.
Y lo perdimos para siempre.

O OUTONO APROXIMA-SE

O outono aproxima-se sem muito barulho:
cigarras apagadas, apenas grilos
que defendem o reducto
de um verão obstinado em ser eterno,
cujo rasto esplêndido ainda brilha no oeste.
Dir-se-ia que aqui nada se passa,
mas um silêncio súbito ilumina o prodígio:
passou
um anjo
que se chamava luz, ou fogo, ou vida.
E perdemo-lo para sempre.

tradução: J.T.Parreira 

Durante muchos siglos
la costumbre fue ésta:
aleccionar al hombre con historias
a cargo de animales de voz docta,
de solemne ademán o astutas tretas,
tercos en la maldad y en la codicia
o necios como el ser al que glosaban.
La humanidad les debe
parte de su virtud y su sapiencia
a asnos y leones, ratas, cuervos,
zorros, osos, cigarras y otros bichos
que sirvieron de ejemplo y moraleja,
de estímulo también y de escarmiento
en las ajenas testas animales,
al imaginativo y sutil griego,
al severo romano, al refinado
europeo,
al hombre occidental, sin ir más lejos.
Hoy quiero ?y perdonad la petulancia?
compensar tantos bienes recibidos
del gremio irracional
describiendo algún hecho sintomático,
algún matiz de la conducta humana
que acaso pueda ser educativo
para las aves y para los peces,
para los celentéreos y mamíferos,
dirigido lo mismo a las amebas
más simples
como a cualquier especie vertebrada.
Ya nuestra sociedad está madura,
ya el hombre dejá atrás la adolescencia
y en su vejez occidental bien puede
servir de ejemplo al perro
para que el perro sea
más perro,
y el zorro más traidor,
y el león más feroz y sanguinario,
y el asno como dicen que es el asno,
y el buey más inhibido y menos toro.
A toda bestia que pretenda
perfeccionarse como tal
?ya sea
con fines belicistas o pacíficos,
con miras financieras o teológicas,
o por amor al arte simplemente?
no cesaré de darle este consejo:
que observe al homo sapiens, y que aprenda.

lido aqui

A VECES

Escribir un poema se parece a un orgasmo:
mancha la tinta tanto como el semen,
empreña también más en ocasiones.
Tardes hay, sin embargo,
en las que manoseo las palabras,
muerdo sus senos y sus piernas ágiles,
les levanto las faldas con mis dedos,
las miro desde abajo,
les hago lo de siempre
y, pese a todo, ved:
¡no pasa nada!
Lo expresaba muy bien Cesar Vallejo:
"Lo digo y no me corro".
Pero él disimulaba.

CANCIÓN DE AMIGA

Nadie recuerda un invierno tan frío como éste.

Las calles de la ciudad son láminas de hielo.
Las ramas de los árboles están envueltas en fundas de hielo.
Las estrellas tan altas son destellos de hielo.

Helado está también mi corazón,
pero no fue en invierno.
Mi amiga,
mi dulce amiga,
aquella que me amaba,
me dice que ha dejado de quererme.

No recuerdo un invierno tan frío como éste.

¿CÓMO SERÉ...

¿Cómo seré o
cuando no sea yo?
Cuando el tiempo
haya modificado mi estructura,
y mi cuerpo sea otro,
otra mi sangre,
otros mis ojos y otros mis cabellos.
Pensaré en ti, tal vez.
Seguramente,
mis sucesivos cuerpos
-prolongándome, vivo, hacia la muerte-
se pasarán de mano en mano
de corazón a corazón,
de carne a carne,
el elemento misterioso
que determina mi tristeza
cuando te vas,
que me impulsa a buscarte ciegamente,
que me lleva a tu lado
sin remedio:
lo que la gente llama amor, en suma.

Y los ojos
-qué importa que no sean estos ojos-
te seguirán a donde vayas, fieles.

CUMPLEAÑOS

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
Yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡Mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.

INMORTALIDAD DE LA NADA

Todo lo consumado en el amor
no será nunca gesta de gusanos.

Los despojos del mar roen apenas
los ojos que jamás
-porque te vieron-,
jamás
se comerá la tierra al fin del todo.

Yo he devorado tú
me has devorado
en un único incendio.

Abandona cuidados:
lo que ha ardido
ya nada tiene que temer del tiempo.

LA VIDA EN JUEGO

Donde pongo la vida pongo el fuego
de mi pasión volcada y sin salida.

Donde tengo el amor, toco la herida.

Donde pongo la fe, me pongo en juego.

Pongo en juego mi vida, y pierdo, y luego
vuelvo a empezar, sin vida, otra partida.

Perdida la de ayer, la de hoy perdida,
no me doy por vencido, y sigo, y juego
lo que me queda: un resto de esperanza.

Al siempre va. Mantengo mi postura.

Si sale nunca, la esperanza es muerte.

Si sale amor, la primavera avanza.

TODO AMOR ES EFÍMERO

Ninguna era tan bella como tú
durante aquel fugaz momento en que te amaba:
mi vida entera

YA NADA ES AHORA

Largo es el arte; la vida en cambio corta
como un cuchillo
Pero nada ya ahora
-ni siquiera la muerte, por su parte
inmensa-

podrá evitarlo:
exento, libre,

como la niebla que al romper el día
los hondos valles del invierno exhalan,

creciente en un espacio sin fronteras,

ese amor ya sin ti me amará siempre.

lidos aqui

Y me vuelvo a caer desde mí
mismo
al vacío,
a la nada.

¡Qué pirueta!

¿Desciendo o vuelo?

No lo sé.

Recibo
el golpe de rigor, y me incorporo.

Me toco para ver si hubo gran daño,
mas no me encuentro.

Mi cuerpo, ¿dónde está?.

Me duele sólo el alma.

Nada grave.


lido aqui