Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral foi professora de Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto. Tem publicações académicas (em Portugal e no estrangeiro) nas áreas de Literatura Inglesa, Literatura Norte-Americana, Literatura Portuguesa e Literatura Comparada. É Investigadora Associada do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

A sua poesia consta em várias antologias. Publicou algumas obras para crianças e seis livros de poesia (Minha Senhora de Quê, 1990; Coisas de partir, 1993; Epopéias, 1994; E Muitos os Caminhos, 1995; Às vezes o Paraíso, Lisboa, 1998; Imagens, 2000; A Arte de Ser Tigre, 2003; A Génese do Amor, 2005).

Nasceu em 1956, onde nasceram 90% dos lisboetas (na Maternidade Alfredo da Costa). Aos nove anos, mudou-se, por vontade alheia, de Sintra para terras do Norte (Leça da Palmeira) (…) Frequentou a Faculdade de Letras do Porto, tendo-se licenciado em Germânicas. Deve ter gostado tanto da Faculdade que por lá se deixou ficar, como professora, 

Por necessidade de carreira, tinha que fazer doutoramento. E fez; sobre Emily Dickinson, cujos poemas a fascinam tanto como a fascinara o Zorro. Pelo caminho, foi publicando livros de poemas(…)

Ana Luísa Amaral,morreu aos 66 anos, no dia 5 de agosto de 2022

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fotografia: Graça Sarsfield

Poemas

COISAS DE PARTIR

Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo,
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.

Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?

E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.

 

Reflexos
Olho-te pelo reflexo
do vidro
e o coração da noite

E o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti

 

de Coisas de Partir, Fora do Texto, 1990

Quase de nada místico

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
 
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
 
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.

 

de Às vezes o Paraíso, Quetzal Editores, 1998

No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés
tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
de avesso
para te amar em excesso

 

de Vento, Sombra de Vozes / Viento Sombra de Voces- Antologia de Poesia Ibérica;

Ed. CELYA, Salamanca, 2004

Quarta Metamorfose

Por isso precisara
da metamorfose,
de construir um pêlo fulvo
e rente,
em vez de pano largo
tecido a solidão

Era mais fácil enfrentar o sol,
era mais fácil lidar com as estrelas
que haviam construído um ninho
de ternura,
e depois desabado
da árvore mais larga,
no atónito
de tudo

Era mais fácil
a arte de ser
tigre

 

de A Arte de Ser Tigre; Gótica, 2003

encontrado aqui

Relatividades

Albert Einstein tinha um cabelo hirsuto
e branco na idade,
e nariz farejante junto ao tempo.
E assim deixou o verso
mais perfeito:
velocidade ao quadrado
em equação de luz.

Fervendo pelo espaço,
a energia mil igual à massa
(vezes o que já pus
nos outros versos).

Mas era o olhar longo,
as pálpebras tão tristes
de ver além de nós:
melodias de sonho e teoria,
filamentos hirsutos junto ao Sol,
cogumelos, acordes.

E na corrente quântica das coisas,
Entender que o mais largo
É o que não se vê:
quadrado inconsciente
gerando,
um éme cê amargo:
por moderno e feroz
auto-de-fé.

 

O exacto curso do rio

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.

 

de Imagias, Gótica, 2002

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.

Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:

um namorado sem falar
de amor

(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)

 

poema lido aqui

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em altorisco),
e a dança no trapézio proibido,
sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

 

lido aqui