|  |  |  |
 
 
Poetas do Mundo - Portugal - Maria Azenha (1945  
 
 de amor ardem os bosques

PRIMEIRA FOLHA

VI

Não tem importância nenhuma escrever um poema
a não ser a possibilidade de o não ter escrito

abrigo-me entre árvores prestes a parir gritos em flor
na materna ciência do silêncio
onde só o amor flutua

IX

Um ramo de acácias
a terra perfumada:

o Alcorão dos bosques

 

SEGUNDA FOLHA

VII


A árvore

nua

de peito amplo

retira da sombra da noite
a ciência do manto


 

TERCEIRA FOLHA

II

Desde que aluz se fez artificial ficámos orfãos
juntaram-se nas cidades os solitários
para pôr em comum a solidão
-fumadores de papel, como diria Pavese-
puxados pela corda negra da fome.
há livros de olhos postos no corpo. vêem-se de noite.
de vez em quando gritam. e nascem folhas que
uma vez abertas não se conseguem mais fechar

V

Estou na página, neste falso regaço materno
neste assombro de navegar e dar a volta ao mundo
da maneira mais estranha

as crianças vêm aconchegar-se aqui
quase sempre tristes,

esmagam a luz nos olhos
de tanto sonho e escuridão

só quero sentir esta luz.esta luz que amei
e perdi


 

QUARTA FOLHA

IV

Canto a luz,
o silêncio triunfante da mão esquerda dos bosques,
os abetos e as pedras as núpcias da manhã
as suas alongadas sombras surpreendidas pelo piano das fontes
- cantante coração de águas exiladas.

e levantam-se do chão. cobrem-se com uma gota de orvalho celeste
o solo absorve o seu rasto luminoso sob a cortina das trevas
há gnomos e magos plantados em carruagens de turmalinas
afogam a espessura das palavras no grito de um peixe cego
- vocábulos cerzidos no alvor das chuvas.


QUINTA FOLHA

VII


A primavera abre mil flores num sopro

livre
na flecha e no arco
escolhe o domínio das cores.

de um espelho a outro
multiplica o jogo.

ler mais aqui

 


 
design by netsigma 
Site Meter