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Poetas do Mundo - Portugal - Carlos de Oliveira (1921 - 1981)  
 
 poemas dispersos

Amazónia

IV


Céu.
Apalpo e oiço
o silêncio. O silêncio
adensou e rangeu.

Gândara

IV

Ao lume da estrumeira
lagos esverdeados.
Passam os meninos a tarde inteira
a olhar os lagos encantados.

Os vermes que apodrecem
aconchegando-nos nas mãos avaras:
os dedos dos meninos enegrecem,
os lagos ficam mais claros.

Já esqueceram a lagoa e a maneira
de atirar pedras às águas calmas como um manto.
Enfeitiçados, os lagos da estrumeira
trazem-nos naquele encanto.

 

Estrela

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.

 

Tarde
A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

***

Um pássaro de outono
no jardim;
uma ave para desfolhar,
como se faz às rosas,
pena a pena;
ou qualquer coisa assim.

 

***


Vontade de chorar
com o coração ferido
num gume de açucenas.

Vontade de beber
sem crimes e sem erros.

Vontade de imitar
a boémia do luar
aos trambolhões nos cerros.

Rumor de água

Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.

 

de Sub specie mortis

Diz-se que os anjos voam
doutro modo; leves;
que não levam peso
quando partem;
a nossa miséria já filtrada,
a sua misericórdia imponderável;
flutuam; pairam; vogam:
verbos de pouca densidade;(...)


poemas lidos por aqui e por ali.


 


 
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