de "Vida Oculta"
AMÁVEL PÚBLICO
O prestidigitador (vocábulo
cesarínico e difícil) era espectacular
demais para o espectáculo,
saíam-lhe flores da vara
e pedia ao “amável público”
um voluntário à força
para o fazer, mágico que era,
evaporar-se numa caixa
e toda a infância me parece
essas toscas bancadas de circo
nas quais eu olhava para o chão
com medo de um foco de luz.
FUMAR MATA
Fumar mata. Com cinco inconclusos cigarros
morrerei decerto doutro motivo.
Cigarros escondidos, obrigatórios, demonstrativos, sexuais,
cigarros ocultos atrás de livros, fumados
na casa de banho que o vento depois não drenava,
cigarros amargos e engastados na garganta,
comprados, deitados fora,
cigarros infrutíferos como esses anos em tudo o mais,
nem rodapé biográfico mas erupção sociológica.
Fumar mata. De não fumar nada direi.
SALA DE ESPERA
Cinquentonas adiposas
homens de bigode problemático
duas angustiadas estéreis
outras duas parideiras
velhos parados na sua velhice
funcionários tão públicos
uma adolescente esburacada
a mãe catastrófica
o jovem lamentável casal
uma miúda que só olha
um avô despedaçado,
todos na mesma fila que eu
para os comprimidos.
CORVO
Todas as idades têm um corvo.
Este é o corvo dos meus vinte anos.
Dá-me, corvo, a luz extinta que sobrevoas,
o entendimento obscuro, a verdade imprevista,
dá-me o corvo camuflado,
a memória entrecortada de luzes contrárias.
Asa de corvo, janela de corvo, memória de corvo.
de Vida oculta, Relógio D’Água, 2004
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