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Poetas do Mundo - Portugal - Pedro Mexia (1972  
 
 de "Vida Oculta"

 

 

AMÁVEL PÚBLICO

 

O prestidigitador (vocábulo

cesarínico e difícil) era espectacular

demais para o espectáculo,

saíam-lhe flores da vara

 

e pedia ao “amável público”

um voluntário à força

para o fazer, mágico que era,

evaporar-se numa caixa

 

e toda a infância me parece

essas toscas bancadas de circo

nas quais eu olhava para o chão

com medo de um foco de luz.

 

 

 

FUMAR MATA

 

Fumar mata. Com cinco inconclusos cigarros

morrerei decerto doutro motivo.

Cigarros escondidos, obrigatórios, demonstrativos, sexuais,

cigarros ocultos atrás de livros, fumados

na casa de banho que o vento depois não drenava,

cigarros amargos e engastados na garganta,

comprados, deitados fora,

cigarros infrutíferos como esses anos em tudo o mais,

nem rodapé biográfico mas erupção sociológica.

Fumar mata. De não fumar nada direi.

 

 

 

SALA DE ESPERA

 

Cinquentonas adiposas

homens de bigode problemático

duas angustiadas estéreis

outras duas parideiras

velhos parados na sua velhice

funcionários tão públicos

uma adolescente esburacada

a mãe catastrófica

o jovem lamentável casal

uma miúda que só olha

um avô despedaçado,

todos na mesma fila que eu

para os comprimidos.

 

 

 

CORVO

 

Todas as idades têm um corvo.

 

Este é o corvo dos meus vinte anos.

Dá-me, corvo, a luz extinta que sobrevoas,

o entendimento obscuro, a verdade imprevista,

dá-me o corvo camuflado,

a memória entrecortada de luzes contrárias.

 

Asa de corvo, janela de corvo, memória de corvo.

 

 

 

de Vida oculta, Relógio D’Água, 2004


 
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