de "Eliot e outras observações"
LEITURAS OBRIGATÓRIAS
Vê-se o castelo, vou poetando trivialidades no caderno, à minha frente a rapariga estuda o Livro do Desassossego, eu estou sossegado e estudo a rapariga, não realmente bonita mas de íris inquisidoras e surpreendente decerto entre quatro paredes.
Se eu fosse algum dia um poeta seria uma obrigação curricular para os vindouros, versos a acompanhar cigarros e namoros, o livro com manchas de café, uma rapariga (filha desta?) a ler o que hoje escrevi no Chiado e alguém noutra mesa a fazer um poema acerca disso.
AS PESSOAS FELIZES
Ao contrário das pessoas felizes
as pessoas tristes cruzam-se na rua
e no silêncio clínico do metro.
Admiramos com ternura aqueles que choram,
tememos os que riem,
E no fim do trajecto espera-nos a família.
AVÓS
Há avós que pedem, enrodilhados, no metro, apertamos os sobretudos, criminosos felizes.
METROPOLITANOS
Aqui estamos, atravessando
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metrpolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que connosco através
de túneis dantescos (cliché),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupa do nosso
tempo (capitalismo tardio),
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntesis irónico
da consciência que talvez queira fazer
a diferença mas não faz nada (nada).
ALEXANDRIA
Lisboa não é Alexandria mas Alexandria não passa de uma metrópole em versos subida e sublimada, a sua geometria, as incisões do pequeno desespero. Dêem-me uma cidade, que esta minha está cansada e não quero outra, escadarias em que se desce sempre, velhas varandas apalaçadas, dêem-me uma Alexandria do pensamento, com uma antiguidade a dourar cada hora, cada entardecer, mas uma antiguidade falsa, hiperbólica, subtil de tão imaginada, unreal city. Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios que conheci, outros ocultos, percursos que adivinho no avanço das multidões, dias de festa, lambris de janelas, amuradas. Não quero este rio, nem o outro, heraclitiano, que me oferecem umas breves obras completas na estante. Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade ou idioma, uma cidade para que eu possa inaugurar o passado das ruas e, sem outro propósito, respirar.
NEO-REALISMO
Fotografias de baptizados, férias de verão, a quem interessa tal, presentes, missangas, uma ruga a mais, projectos para mais tarde, uma tareia infantil, cremes, pensamento positivo, a quase queca de ontem à noite. Isto as empregadas de balcão, entre um e outro e outro pedido de clientes esfomeados e estúpidos.
ROTINA
Este é o meu número:
telefonem-me.
Este é o sítio
onde passo as tardes:
encontrem-me.
Ou não me telefonem
nem me encontrem
mas pensem em mim
enquanto estiverem a viver.
“DÊ SANGUE”
Dê sangue,
mas não necessariamente
o seu,
dê por exemplo o sangue
sacrificado em vão,
o sangue do tédio,
o snague
que faz falta,
dê o sangue dos corpos
que se dão
porque alguém pede.
LOJA DO CIDADÃO
Em fila, quase divertidos, os cidadãos
limpam os polegares negros com lenços
de papel e suspeitam que o homem
da medição lhes roubou uns centímetros.
Revêem as fotografias pequenas
que sobraram e comparam-nas
com o cartão caduco. Alguns planeiam
perguntar ao empregado calvo
do guichet metafísico: com o bilhete
podemos renovar também a identidade?
de Eliot e Outras Observações, Gótica, 2003
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