|  |  |  |
 
 
Poetas do Mundo - Portugal - Pedro Mexia (1972  
 
 de "Eliot e outras observações"

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Vê-se o castelo, vou poetando trivialidades
no caderno, à minha frente a rapariga estuda o Livro
do Desassossego
,
eu estou sossegado e estudo a rapariga,
não realmente bonita mas
de íris inquisidoras e surpreendente
decerto entre quatro paredes.

Se eu fosse algum dia um poeta
seria uma obrigação curricular para os vindouros,
versos a acompanhar cigarros e namoros,
o livro com manchas de café, uma rapariga (filha desta?)
a ler o que hoje escrevi no Chiado
e alguém noutra mesa a fazer
um poema acerca disso.



 

AS PESSOAS FELIZES

 

Ao contrário das pessoas felizes

as pessoas tristes cruzam-se na rua

e no silêncio clínico do metro.

Admiramos com ternura aqueles que choram,

tememos os que riem,

E no fim do trajecto espera-nos a família.

 

 


AVÓS

Há avós que pedem, enrodilhados, no metro,
apertamos os sobretudos, criminosos felizes.



 

METROPOLITANOS

 

Aqui estamos, atravessando

sem saber o nosso destino,

à espera que o próprio caminho

o torne evidente (mas não),

somos todos assim metrpolitanos (urbanos),

saímos na estação errada,

lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento

nos rostos que connosco através

de túneis dantescos (cliché),

e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)

que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),

um plano (subterrâneo)

de linhas que se cruzam com as linhas

da mão, interceptadas em cores

e com o guarda-roupa do nosso

tempo (capitalismo tardio),

atravessamos (atrasados), sob o sol

que imaginamos em cima (platónico),

interrompidos pelo parêntesis irónico

da consciência que talvez queira fazer

a diferença mas não faz nada (nada).

 

 

ALEXANDRIA

Lisboa não é Alexandria mas
Alexandria não passa de uma metrópole
em versos subida e sublimada, a sua geometria,
as incisões do pequeno desespero.
Dêem-me uma cidade, que esta minha
está cansada e não quero outra,
escadarias em que se desce sempre,
velhas varandas apalaçadas,
dêem-me uma Alexandria do pensamento,
com uma antiguidade a dourar cada hora,
cada entardecer, mas uma antiguidade
falsa, hiperbólica,
subtil de tão imaginada, unreal city.
Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios
que conheci, outros ocultos,
percursos que adivinho no avanço
das multidões, dias de festa,
lambris de janelas, amuradas.
Não quero este rio, nem o outro,
heraclitiano, que me oferecem
umas breves obras completas na estante.
Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade
ou idioma, uma cidade para que eu possa
inaugurar o passado das ruas
e, sem outro propósito, respirar.

 

 


NEO-REALISMO

Fotografias de baptizados, férias
de verão, a quem interessa tal,
presentes, missangas, uma ruga
a mais, projectos para mais
tarde, uma tareia infantil,
cremes, pensamento positivo, a quase
queca de ontem à noite. Isto
as empregadas de balcão, entre
um e outro e outro pedido
de clientes esfomeados e estúpidos.

 

 

 

ROTINA

 

Este é o meu número:

telefonem-me.

Este é o sítio

onde passo as tardes:

encontrem-me.

Ou não me telefonem

nem me encontrem

mas pensem em mim

enquanto estiverem a viver.

 

 

 

“DÊ SANGUE”

 

Dê sangue,

mas não necessariamente

o seu,

dê por exemplo o sangue

sacrificado em vão,

o sangue do tédio,

o snague

que faz falta,

dê o sangue dos corpos

que se dão

porque alguém pede.

 

 

 

LOJA DO CIDADÃO

 

Em fila, quase divertidos, os cidadãos

limpam os polegares negros com lenços

de papel e suspeitam que o homem

da medição lhes roubou uns centímetros.

Revêem as fotografias pequenas

que sobraram e comparam-nas

com o cartão caduco. Alguns planeiam

perguntar ao empregado calvo

do guichet metafísico: com o bilhete

podemos renovar também a identidade?



 

de Eliot e Outras Observações, Gótica, 2003


 
design by netsigma 
Site Meter