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Poetas do Mundo - Rússia - Maiakóvski (1893 -1930)  
 
 A Nuvem de Calças

 

 

(…)

Se quiserem,

serei apenas carne louca

e, como o céu, mudarei de tom,

se quiserem,

serei impecavelmente delicado,

não serei homem, mas uma nuvem de calças !

 

Não acredito que haja uma Nice florida !

Hoje de novo canto a glória

dos homens que o pecado fez malignos

e das mulheres gastas como um lugar comum.

(…)

 

Maria ! Maria! Maria!

Abre, Maria !

Não me deixes na rua!

Não queres­ ?

Esperas

que fique de face bichosa,

provado por todas as mulheres,

insípido,

e venha

e diga, sem dentes,

que hoje

“sou duma castidade espantosa”?

 

Maria,

vês ?,

já começo a andar curvado.

 

Pelas ruas

a gente sacode a banha de quatro papadas,

esbugalha os olhos,

gastos por quarenta anos de uso, -

e troca sorrisos,

porque eu levo nos dentes

-outra vez! –

os restos das carícias de ontem.

 

A chuva aborrecia os passeios,

dos charcos compacto ladrão,

molhado, lambendo o cadáver lapidado da rua,

e nas pestanas brancas,

- sim! -

nas pestanas de gelados carambanos,

lágrimas dos olhos

- sim! -

dos olhos baixos dos algerozes.

A chuva encharcando o rosto dos passantes,

enquanto nas carruagens brilhavam nédios atletas:

a gente rebentava

de comer por todos os lados.

e a banha saía-lhe dos poros.

em túrbidos riachos escorria da carruagem

junto com os restos das almôndegas

dos velhos tempos.

 

Maria !

Como havemos de fazer entrar nessa orelha sebosa uma

                                                                       palavra meiga ?

A ave

vive de canções,

canta,

faminta e sonora,

mas eu sou homem, Maria,

simples,

na suja mão de Présnaia cuspido uma noite tísica.

Maria, queres-me assim ?

Abre, Maria !

Com os dedos crispados apertarei a garganta de ferro

                                                                       da campainha !

 

Maria !

 

Enfurecem-se os currais das ruas.

No colo ferido os dedos cintos.

 

Abre !

 

Dói !

 

Vês ? Tenho os olhos cheios

de alfinetes de chapéus de mulher !

 

Abriu.

 

Querida !

Não te assustes

que no meu costado de louco

haja sentadas mulheres de saias molhadas, -

é uma carga que levo comigo pela vida fora:

milhões de amores puros e enormes

e milhões de milhões de pequenos amores sujos.

Não temas

que de novo

caia na infidelidade habitual,

me atire a milhares de caras bonitas, -

as amantes de Maiakovski

são uma dinastia

de rainhas entronizadas no coração de um louco.

 

Maria, anda cá !

 

Nua e sem pudor,

ou com um tímido tremor,

mas dá-me o encanto dos teus lábios que nunca murcharão:

o meu coração nunca chegou a Maio,

na vida vivida

nunca passou de Abril.

 

Maria !

O poeta canta sonetos a Tiana,

e eu –

todo de carne,

todo humano –

só peço o teu corpo

como os cristãos pedem

“o pão nosso de cada dia

nos dai hoje”.

 

Maria – dá !

 

            Maria !

Tenho medo de o teu nome esquecer,

como teme olvidar o poeta

a palavra

nascida no martírio nocturno

grande só como Deus.

 

Teu corpo

cuidarei e amarei,

como o soldado

mutilado na guerra,

inútil

e sem dono,

cuida da única perna.

 

Maria –

não queres ?

Não queres ?

 

Ah !

 

Quer dizer que de novo sombria e tristemente

pegarei no coração,

salpicado de lágrimas,

e o levarei

como um cão

que para a casota

arrasta

a pata atropelada.

 

            Com sangue do meu coração ficará manchado o caminho

como com flores de fogo lançadas à poeira.

Mil vezes bailará o Sol à volta da Terra

como a filha de Herodes

à volta da cabeça do Baptista.

 

E quando os meus anos

bailem até ao fim –

cobrir-se-á com milhões de gotas de sangue

o caminho até à morada de meu pai.

 

Sairei então

sujo (de dormir nas sargetas),

e ponho-me a seu lado,

inclino-me

e digo-lhe ao ouvido:

 

-Escuta, senhor Deus !

Como é que não te aborreces

nessa gelatina de nuvens

deitando água todos os dias dos teus olhos bondosos ?

Sabes uma coisa ?

Vamos construir um carrocel

na árvore da sabedoria do Bem e do Mal.

 

Omnipresente, estarás em todos os armários,

e pomos à mesa uns vinhos e tais

que incitem a bailar

o taciturno apóstolo S. Pedro.

E de Ervas encheremos de novo o paraíso:

uma palavra tua, -

e esta mesma noite

pelas ruas juntarei

as mais belas raparigas.

 

Queres ?

 

Ou não queres ?

 

Abanas a cabeça, cabeludo ?

Franzes as sobrancelhas cãs ?

Achas

que esse aí

com asas, atrás de ti,

sabe o que é o amor ?

 

Eu também sou um anjo, fui

como um cordeiro inocente,

mas fartei-me de dar às éguas

vasos feitos de sofrimento de Sévres.

Todo-poderoso, tu, que inventaste estas mãos,

que deste

uma cabeça a cada um de nós,

porque não decidiste

que sem sofrer

se pudesse beijar, beijar e abraçar ?!

 

            Julgava que eras um Deusão omnipotente,

mas não passas de um Deusito um pouco desajeitado.

Vês ? Curvo-me

e da bota

tiro um punhal.

Patifes alados !

Agachai-vos no paraíso !

Eriçai as plumas e tremei de medo !

A Ti, que cheiras a incenso, cortarei

daqui até ao Alasca !

 

Deixem-me !

 

Não me detenham !

Certo

ou errado         

            não posso ficar calmo.

            Olhem –

            decapitaram mais estrelas

            e ensanguentaram o céu como um matadouro !

 

Eh, tu !

Ó céu !

Tira o chapéu !

Que vou a passar eu !

 

Silêncio !

 

            O Universo dorme

com a enorme orelha

cheia de estrelas

sobre a pata.

 

(1915)

 

 

Trad. de Manuel de Seabra 

   

de Obras de Maiakovski- Volume I; Vento de Leste, 1979


 
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