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Poetas do Mundo - Portugal - Maria do Rosário Pedreira (1959  
 
 de "O Canto do Vento nos Ciprestes"

 

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto-
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer- é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

 

 

 

 

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos

e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo

doeu-me onde antes os teus dedos foram aves

de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

 

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha

camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração

que era o resto da vida – como um peixe respira

na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

 

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti

é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara

um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo

um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

 

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;

mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota

as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

 

 

 

 

 

Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas

que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger

da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam

as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas

 

dos penhascos porque as cidades apodrecem junto

às margens; que o vento é um chicote que desaba

os chapéus; que a terra treme; que o nevoeiro cega; e

que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do

vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.

 

E, se assim mesmo quero ir, dizes que os meus passos

se perderiam no comprimento das sombras – que não há

mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que

os ramos debruçados dos muros em ruínas rasgariam

a carne – como um sorriso rasga o tecido de um rosto.

 

Se não me amas, porque me avisas da dor?

 

 

 

 

 

 

 

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta

uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre

e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

 

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão

das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;

mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,

porque o ar que respiras junto de mim é como um vento

a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

 

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno

nos dias sem ninguém –longe de ti, o corpo não faz

senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta

as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto

espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.

 

Se me abraçares, não partas.

 

 

 

 

 

Se terminar este poema, partirás. Depois da

mordedura vã do meu silêncio e das pedras

que te atirei ao coração, a poesia é a última

coincidência que nos une. Enquanto escrevo

 

este poema, a mesma neblina que impede a

memória límpida dos sonhos e confunde os

navios ao retalharem um mar desconhecido

 

está dentro dos meus olhos – porque é difícil

olhar para ti neste preciso instante sabendo que

não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

 

continuo a amar-te em surdina com essa inércia

sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não

beijos, porque o poema é o único refúgio onde

podemos repetir o lume dos antigos encontros.

 

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,

que apenas escreva até ao fim mais esta página

(que, como as outras, será somente tua – esse

 

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que

aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade

nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

 

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;

e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á

a última coincidência que nos une.

 

 
 
Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.
 
O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,
 
disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)
 
Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.
 
 
 

Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue

arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam

nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade

nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento

levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo

para te esquecer – mas nunca abria a porta.

 

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –

a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes

como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol

tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,

que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia

a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso

escondido sob a pele – mas depois acordava e não ia.

 

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –

os livors resvalam-me do colo e o bolor avança

sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas

tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto

ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora

quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir

bater o coração da terra no meu peito. Os vermes

alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

 
 
 
 
Na tua boca cantou subitamente uma voz
E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,
o rio que outrora bordava o campo emudeceu
com as suas pedras lisas. Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas
e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros
e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem
e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte -
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão
escorregou pela inclinação do sol e veio contar
as sombras do um decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo
.
 
 

Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite –

e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e

um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas

que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos,

e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras,

nem das aves negras nos meus braços de mármore,

nem de te ter perdido – não ter medo de nada. Pudesse

 

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo –

das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite;

de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo

deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida

e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo

já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era tarde

para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse

 

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor,

a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi –

porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre

o que valeu a pena ( o mais eram os gestos que não cabiam

nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse

 

eu deixar de escrever esta manhã, o dia treme na linha

dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer,

mas ouço-te a respirar no meu poema.

 

 

 

 

 

 

Nunca te esqueci – é este um amor maior

que atravessa a vida e resiste à cicatriz

do tempo. O que ontem me disseste agora

o ouço, como se nada tivesse interrompido

a magia do instante em que as nossas bocas

se aguardavam na distância de um beijo e

o olhar tocava o corpo antes da mão. Se

 

hoje vieres por esse livro que deixaste (e cuja

lombada acariciei todos os dias que durou a tua

ausência como uma nesga de sol acaricia um

rosto no Inverno), encontrarás a sopa a fumegar

na mesa, e a camisa engomada no cabide, e os

lençóis da cama imaculados, e um corpo pronto

para qualquer aventura – e ainda o cão deitado

à porta, à tua espera, como na véspera de partires.

 

Porque os anos não contam para quem assim ama.

 

 

de O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica, 2001




 
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