de "A Casa e o Cheiro dos Livros"
O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros. As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa, tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro ainda faziam amor à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho. Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro, antes de se despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente a infância, postais antigos, o silêncio - nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha, à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
Fado
Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite. Estou assustada à espera que regresses: as ondas já engoliram a praia mais pequena e entornaram algas nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas que perseguiram os pombos e os morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo de ervas com canela; e há compota de ameixas e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade, a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia na saia a mordedura quente, a ferida, a marca de todos os enganos, faria quase tudo
por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria, e guardaria calados os fantasmas do medo, que são os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria de sentar-se à mesa dele e negar que o amava, porque amá-lo era um engano ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre a cair da folha, a prolongar o desencontro. E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes; arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo, E eu não sei nada
disto que me contam, nem me aparece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto
a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.
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