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Poetas do Mundo - Portugal - Maria Azenha (1945  
 
 8 poemas

nem sempre as palavras chegam



encosto o ouvido
às páginas do livro que nunca escreveste
e sei que és um búzio
ao
anoitecer


mando-te mil recados pelas lâminas do vento
da tua boca brota uma fonte
digo amo-te e às vezes a memória
é onde os pássaros não voam


nem sempre as palavras chegam
para levar as estrelas aos teus olhos

nem eu sei dizer o teu nome

 

 

 

 

há fotografias como punhais



há fotografias como punhais
e poemas também

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os escrever em pedaços de argila

neles estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos
e o meu pai e a minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto

e também a rapariga feia e bela
e desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca foi escrito deste modo
e que foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá mas eu estive
trouxe-o comigo
é exactamente por isso que os meus poemas
escritos em verso já foram todos escritos
são como chagas alastrando e crescendo
em cristais do fogo

e o recinto do seu destino

está entre a terra e as estrelas


sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel

 

 

 

 

le bateau terroriste



nunca entrou um barco pela manhã
no teu quarto? os meus dedos cravaram-se
na branca página do ar e tu porventura
não sabes que deles sobrou uma âncora

talvez a encontres sob a forma de lâmina
ou de faca junto à raíz do coração do mar

acolhe-te aqui agora digo bem alto
deixa-me adivinhar a cor do sol na tua boca
nunca nevou tanto lá fora

as palavras doem como o perfume
ensanguentado

dos comboios em Londres

 

 

 

 

o coração gasta-se



foram escritos a sangue os poemas
que hoje escrevi com o teu nome
todos pintados com as minhas mãos no tear
das ruas/ áridas em vozes/à beira do rio passava
o álbum fresco das folhas mortas
do meu coração/perdidas há tanto tempo/
como os bilhetes que te escrevo sem resposta/

pouco haverá já que me prenda/pouco/


encontrei hoje um cego
que parecias tu nos olhos

 

 

 

 

palavras ardentes


primeiro momento

as palavras podem entrar para me visitar
podem ler-me
podem até espreitar-me
com elas posso até fazer um teorema para a opus day
cozinhar até pensar que os pobres são muito ricos
com arquivos e tudo e ficheiros


segundo momento

nunca conheci o senhor Cauchy
nem pessoalmente
nem por correio electrónico
posso até dizer que odeio os grandes espaços com muita gente
porque ficam muito pequenos


terceiro momento

tenho uma chave escondida na palavra gaveta
gosto muito de chaves
gosto ainda mais de gavetas
decidi-me então fazer uma colecção de selos


quarto momento

não quero mesmo saber nada nem quem é o senhor Cauchy
basta-me ter encontrado na praça de londres
o senhor Carrilho que foi ministro de óculos escuros
com uma palavra escondida no sobretudo


quinto momento

é tudo assim a palavra escondida que disse e
que era uma chave na palavra gaveta
não é nehuma gaveta nem nenhuma chave
nem nenhuma palavra perdida


sexto momento

sou mais sensível ao número pi do que às palavras
escondidas em gavetas como por exemplo
o oceano pacífico que é também um programa
que muitas vezes ouço
tudo isto parece muito confuso mas não é bem assim


sétimo momento

hoje expliquei aos meus alunos o teorema de bolzano
àcerca de funções contínuas e do quotidiano
escrevi
toda a função contínua num intervalo fechado
tem aí um máximo ou um mínimo

e fui feliz


último momento

então isto não é mesmo um país?

 





estranho fogo

(poema inspirado neste sítio da saudade)

 

 

vou escrevendo em cima dos andaimes da luz
a tua voz entrou pelas janelas das grandes cidades
aí o tempo ofuscou a memória das casas
e a cor natural dos campos verdes

já não há sinos nem pássaros nas árvores
para anunciar o meio-dia do vento
nem o silêncio tranquilo da tarde para adormecer
nos espelhos do adro

só as pequenas sílabas das abelhas escondidas nas colmeias
vêm em viagem pelo transitório sangue das calçadas
no ventre das pedras ouço o meu nome o teu nome

o estranho fogo de que o amor é feito

 



despeço-me de mim


 
despeço-me de mim

a página
é o caminho de regresso a casa


escrevo o meu último poema
no bosque
branco
da
neve

com diamantes nos olhos


nele pousou um cisne
uma romã viva
um lençol negro



no céu
as

nuvens

 

 

 

 

 

poema sem palavras


não tenho palavras
estou tão perto do silêncio
aqui
não há voz falada
nem palavra onde
me sente

sou um segredo vivo
ao espelho
escrito muito antes de o escrever

uma pequena luz semeada ao vento
para enviar sinais para o outro
mundo

nada mais
tão natural é eu ter adormecido

olha
as estrelas acenderam-se

e eu respondo talvez


 

 

poemas publicados pela autora aqui

 

 

 


 
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