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Poetas do Mundo - Portugal - Maria Azenha (1945  
 
 de "Nossa Senhora de Burka"

Nossa Senhora de Burka

vi nossa senhora bater-me à porta
apanhou-me de surpresa
julguei que era a porteira àquela hora da manhã
eu estava de robe e de chinelos chineses
a escrever versos que me doem tanto
já pensei até deitá-los fora atirá-los todos para o mar
vê-los navegar fazer deles caravelas como antigamente
iam por aí sabe-se lá aportar onde
mas àquela hora quem me apareceu
foi nossa senhora de burka
fiquei espantada que havia de dizer
perguntei-lhe se queria entrar delicadamente
eu estava a escrever versos para fora da gaveta
com palavras bravas e escandalosas
ela disse que sim que vinha para ficar
andava à procura do filho que perdera
há mais de dois mil anos
posso muito bem compreender a dor humana
sei o que isso é
não tenho é paciência para trocar sorrisos
o que também era indiferente


fiquei muito perturbada deixei-a entrar
arranjei-lhe um chá quente de cidreira
para a acalmar sentei-a no sofá da sala
pedi-lhe para nunca mais falarmos disso
ela acenou com a cabeça e nunca mais
trocámos uma palavra vi-a beber água
desapareceu para meu espanto do aposento
hoje não sei se ela era realmente
a nossa senhora de burka
se eu e ela não somos a mesma
sei que nunca mais tirámos a máscara
nunca mais fui dar aulas
fiquei ali sentada
continuei a escrever versos a noite inteira
para fora da gaveta

hoje chamam-me mary
e foi-me preciso matar

 




Este é um tempo de terror

 

este é um tempo de terror

um tempo de máscaras

um tempo de príncipes sem coroa

 

os navios partiram

nunca mais regressaram

 

hoje

ao som de guerras

os homens

alimentam-se do deserto

 

de que valeram

todas estas gerações angélicas

para a construção da alma?

 

vivemos sem dúvida

um tempo de horror

um tempo de máscaras

 

A Terra

um lugar desformatado,

feio

esférico,

 

sem pessoas,

 

nem jardins para o Amor

 



de Nossa Senhora de Burka, ed. Alma Azul,2002


 
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