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Poetas do Mundo - Portugal - Luís Quintais (1968  
 
 de "ANGST"

Tílias

 

Alguém me fala de tílias. Conheço uma avenida de tílias. Atravesso-a todos os dias em direcção ao trabalho. E os dias começam bem, penso.

Percorro esta atmosfera que me anuncia a manhã. Bem sei que terminarei o dia dobrado pelo incumprido. Mas agora há uma voz que me fala de tílias e uma avenida de tílias e a sagração do que me espera. Sincero jogo. Precário jogo.

 

 

 

Labirinto

 

O rapaz sentou-se sobre o que restara da árvore cortada,

o seu diâmetro, essa zona de anéis concêntricos

fechando-se uns sobre os outros.

 

Um sulco a gravitar tempo fora, ou uma espécie

de boomerang que me atinge depois da longa viagem.

As mãos a levitarem sob a manhã – será sempre manhã

 

porque a luz com que sonho pensando que o evoco

é uma luz exacta, sem a feroz mácula

da nocturna antecipação.

 

A sua expressão – consigo pressenti-la – é um refúgio

inadiável, precisão súbita sem resgate

contemplando-me.

 

Nisto não encontro desenlace ou sequer alguma paz.

O rapaz permanece sentado sobre o mapa

do labirinto e interpela-me:

 

“Não andamos à procura de histórias, pois não?

Onde está o princípio e o fim

de tão elementar acontecimento?

 

Recupera a visão e a visão somente, o que te cerca existe

            quando o vês.”

 

 

 

 

Breve história do tempo

 

Vejo numa extensão de líquenes

traços de carros, caminhos

para o que se afigura irrecuperável.

 

Carros puxados por animais (bois,

cavalos?) cruzando-se com o 4 por 4

(Land Rover?). Haverá excursões

 

para o impossível, pensaste tu.

Os limites do nosso mundo são

esta extensão de líquenes

 

e os sulcos que resistirão à morte.

Somos interlocutores do eterno,

pensei eu. Todos os tempos se cruzarão

 

neste lugar como a fúria da ígnea lava

descendo a encosta e revolvendo tempos

em outro lugar. Toda a terra terá

 

o rosto da mesma terra e a cor

do mesmo movimento. No passado vive o presente

e o futuro, e os carros a tracção animal

 

cruzam-se sem cessar,

nos limites deste mundo,

com os 4 por 4.

 

 

 

 

Precipício

 

As imagens gastas de tão lidas

e os sofisticados lugares comuns da poesia

colam-se-te à pele – pelo incómodo trajo do bom senso

e do bom gosto que repudias.

Vil chegada do que amaste, e que agora recordas.

 

A poesia faz-se contra o esquecimento?

Melhor seria dizer, contra a memória se faz a poesia.

 

sem a arruinada ponte não há precipício?

O que conta é o precipício além da arruinada ponte.

 

 

 

 

Magma

Recolheremos todos os dividendos da luz onde antes havíamos recolhido todos os dividendos do desespero. O que o inevitável nos traz. Recebê-lo-emos com a temperança dos que esperam sem expectativa, dos que pressentem as fronteiras da música em cada erro do passado, em cada equívoco cultivado, em cada golpe sem premeditação, em cada palavra suspensa antes do arrependimento. Desse magma – rememorando magma – virá o que impele o sangue no delta das artérias.

 

 

 

 

Oco

 

II

 

Alguns anos depois – não se sabe quantos –

regressou àquele lugar – integralmente curado, como lhe disseram – e as árvores, antes frondosas, estavam mortas ou agonizantes. Não sentiu o mais pequeno sinal de nostalgia crescendo no oco em si. Só o oco em si.

 

 

 

 

Bichos

Por métrica audaz,
sonhámo-nos livres.
Afinal seríamos bichos.
Sonhámo-nos livres.
Afinal nem sequer
a quatro patas.

 

 

 

de ANGST, Livros Cotovia, 2002


 
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