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Poetas do Mundo - Espanha - Amalia Bautista (1962  
 
 de "Luz del mediodía"

Me dices que me quieres

 

Me dices que me quieres de una forma

que no puedo evitar ruborizarme;

que me quieres de un modo primitivo,

sin razón aparente y sin excusas,

y que me quieres porque me deseas,

porque sabes que yo también te quiero

y porque el monstruo de este amor nos come

el alma, la paciencia y los modales.
Qué lástima que todas estas cosas

se nos mueran ahogadas de silencio.

 

Dizes que me amas

 

 

Dizes que me amas de uma tal forma,

que não consigo deixar de corar;

que me amas de um modo primitivo,

sem razão aparente e sem desculpas

e que me amas porque me desejas,

porque sabes que eu também te amo

e como o monstro deste amor nos devora

a alma, a paciência e as maneiras.

É uma pena que todas estas coisas

morram em nós afogadas de silêncio.

 versão: at

 

 

Si ya

 

Si ya sé que me quieres,

si ya sé que me extrañas.

Si ya sabes que vivo secuestrada

del recuerdo de ti.

Si ya sabes que tengo varias velas

encedidas al dios de la esperanza.

Si llamas y tu voz me hace temblar

lo mismo que una hoja.

Si llamo y tu respuesta al otro lado

me hace temblar lo mismo que una hoja.

Si ya sabemos ambos que ni puedo

ni puedes hacer nada.

Si ya es mucho cualquiera cosa que hacemos,

si ya es un mundo entero

el montón de las cosas que no hicimos.

 

Sim já

 

Sim já sei que me queres,

sim já sei que te espanto.

Sim já sabes que vivo prisioneira

da tua recordação.

Sim já sabes que mantenho várias velas

acesas ao deus da esperança.

Se me ligas, a tua voz faz-me tremer

como se eu fosse uma folha.

Se te ligo, a tua resposta do outro lado

faz-me tremer como uma folha.

Sim já ambos sabemos que nem eu

nem tu podemos fazer nada.

Sim já é muito alguma coisa que fazemos,

sim já é um mundo inteiro

o montão de coisas que não fizemos.

 

 versão: at

 

 

Locuras

 

Y tú tan lejos

y tan dentro de mí, tan invasivo.

Y esta lluvia

que amenaza con disolver la tierra

y hacerlo todo mar, mi pesadilla.

Y de repente todas las distancias

se vuelven infinitas,

como si sólo el loco más malvado

pudiera haberlas concebido.

 

 

Loucuras

 

E tu tão longe

e tão dentro de mim, tão invasivo.

E esta chuva

que ameaça dissolver toda a terra

e tornar tudo mar, o meu pesadelo.

E de repente todas as distâncias

se tornam infinitas,

como se só o louco mais malvado

as pudesse ter concebido.

 

 versão: at

 

 

Algunos infelices

 

Todos necesitamos que nos quieran.

Algunos infelices, sin embargo,

no sabemos vivir para otra cosa.

 

 

Alguns infelizes

 

Todos precisamos que nos amem.
Porém, alguns infelizes,
não sabemos viver para outra coisa.

 

 

tradução: Luis

 

 

 

Luz del mediodía

 

Ni tu nombre ni el mío son gran cosa,

sólo unas cuantas letras, un dibujo

si los vemos escritos, un sonido

si alguien pronuncia juntas esas letras.

 

Por eso no comprendo muy bien lo que me pasa,

por qué tiemblo o me asombro,

por qué sonrío o me impaciento,

por qué hago tonterías o me pongo tan triste

si me salen al paso las letras de tu nombre.

 

Ni siquiera es preciso que te nombren a ti,

siempre nombran la luz del mediodía,

la fruta, el paraíso

antes de la expulsión.

 

 

Luz do meio-dia

 

Nem o teu nome nem o meu são grande coisa,

apenas umas tantas letras, uns rabiscos

se os vemos escritos, um som

se alguém pronuncia essas letras juntas.

 

Por isso não percebo bem o que me acontece,

porque é que tremo ou me surpreendo,

porque é que sorrio ou me impaciento,

porque é que faço parvoíces ou fico tão triste

se acaso tropeço nas letras do teu nome.

 

Nem sequer é preciso que te nomeiem a ti,

designam sempre a luz do meio-dia,

a fruta, o paraíso

antes da expulsão.

 

 versão: at

 

Tus ojos

 

Cuando se han agotado los caminos

que la razón podría aconsejarnos

se abren tus ojos, y con ellos todo

vuelve a inundarse de la luz oscura

que dá sentido al mundo y a mi vida.

 

 

Os teus olhos

 

Quando se esgotaram os caminhos
que a razão poderia aconselhar-nos
abrem-se os teus olhos, e com eles tudo
volta a inundar-se da luz obscura
que dá sentido ao mundo e à minha vida

 tradução: Luis

 

 

Como velas de un barco

 

Entra el viento abombando los visillos

como velas de un barco. Pero el barco

no se mueve, a pesar de que los vientos

parecen favorables. Hace años

que viajo sola a bordo de esta nave.

Y me pregunto qué problema técnico

la tiene anclada en medio de esta nada.

Así que no podremos encontrarnos,

a pesar de que el viento es favorable,

de mi experto manejo del timón

y de mis ganas de llegar a puerto.

 

 

 

Como as velas de um barco

 

Irrompe o vento enfunando as cortinas

como as velas de um barco. Mas o barco

não se move, apesar dos ventos

parecerem favoráveis. Há anos

que viajo sozinha a bordo desta nave.

Pergunto-me que problema técnico

a mantém ancorada no meio deste nada.

Assim não nos poderemos encontrar,

apesar do vento estar favorável,

da minha habilidade no manejo do leme

e da minha ânsia de chegar a bom porto.

 versão: at

 

El Bosque

 

Voy cruzando este bosque solitário,

cruzo este inmenso bosque siempre sola.

No lo componen árboles frondosos,

ni se ven mariposas, ni se oyen

los trinos de los pájaros, ni hay agua.

Es un bosque de cactus, es un bosque

sin ramas y sin hojas y sin flores.

Si hay flores estarán allá en lo alto,

en la cima de cada enorme cactus,

y no puede alcanzarlas mi mirada.

Solo espinas encuentro en este bosque,

espinas que me hieren, que me rasgan

la piel a cada paso, que me rompen

la voluntad y la esperanza. Sangra

cada pequeña herida, lentamente,

interminablemente, y hay algunas

que pueden ser mortales. Sigo andando,

sigo cruzando el bosque sin orillas.

A veces pienso que es un laberinto

porque no veo huellas ni señales

que hagan reconocer lo recorrido.

Si encuentro sangre en las espinhas, dudo

si es mi sangre o la sangre de qualquiera

que ande también perdido en este bosque.

Dias y noches se suceden. Dias

de sed y noches de estupor y frío.

Si al fin consigo hallar una salida,

si este bosque se acaba en algún punto,

si consigo escapar a las agujas

y esta atroz pesadilla se disuelve,

espero que tú estes al outro lado,

y que quieras cuidarme, y me beses

cada arañazo, cada puñalada.

Después no importa que la luz se extinga.

 

 

          Vou atravessando este bosque isolado,

          cruzo este imenso bosque sempre sozinha.

          Não é feito de árvores frondosas,

          nem se vêem borboletas, nem se ouve

          o chilrear dos pássaros, nem há água.

          É um bosque de cactos, é um bosque

          sem ramos, sem folhas e sem flores.

          Se houver flores estarão lá no alto,

          no cimo de cada cacto enorme,

          e o meu olhar não pode alcançá-las.

          Encontro somente espinhos neste bosque,

          espinhos que me ferem, que me rasgam

          a pele a cada passo, que me rompem

          a vontade e a esperança. Sangra

          cada pequena ferida, lentamente,

          interminavelmente, e há algumas

          que podem ser mortais. Continuo a andar,

          vou atravessando o bosque sem orla.

          Ás vezes penso que é um labirinto

          porque não vejo rastos nem sinais

          que façam reconhecer o caminho.

          Se encontro sangue nos espinhos, duvido

          se é o meu sangue ou o sangue de outrem

          que também ande perdido neste bosque.

          Dias e noites sucedem-se. Dias

          de sede e noites de estupor e frio.

          Se por fim conseguir encontrar uma saída,

          se este bosque acabar num ponto qualquer,

          se conseguir escapar às agulhas

          e este pesadelo atroz se dissolver,

          espero que tu estejas do outro lado,

          e que queiras cuidar de mim, e me beijes

          cada arranhão, cada punhalada.

          Depois não importa que a luz se extinga.

 

          

versão: at

 

 

 

Dos gotas de sudor

 

I

 

Hay alguien en el mundo, no sé dónde,

o sí lo sé, pero mejor lo olvido,

que me desnuda sólo con mirarme

y me sueña vestida de princesa.

Alguien con quien no puedo resistirme

a arder bajo la ducha.

Alguien con quien resulta inevitable

sudar en un iglú.

 

II

 

Lloro cuando no estás, sudo contigo.

Mi sudor y mi llanto son iguales,

tenaces y salados,

como el mar de mis sueños y el océano

inabarcable de mis pesadillas.

No pido demasiado, pero me gustaría

sudar un poco más y llorar menos.

 

Duas gotas de suor

 

I

 

Há alguém no mundo, não sei onde,

ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,

que me despe só com um olhar

e me sonha vestida de princesa.

Alguém com quem não posso resistir

a arder debaixo do duche.

Alguém com quem se torna inevitável

suar dentro de um iglu.

 

II

 

Choro quando não estás, suo contigo.

O suor e as lágrimas são iguais,

tenazes e salgados,

como o mar dos meus sonhos e o oceano

abissal dos meus pesadelos.

Não quero pedir demasiado, mas gostava

de suar um pouco mais e chorar menos.

 

 

 

versão: at

 

em Estoy Ausente, Pre-Textos, Valencia, 2004


 
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