de "Dual"
Retrato de uma princesa desconhecida
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
Os Gregos
Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo O meandro do rio o fogo solene da montanha E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre Emergiam em consciência que se vê Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia – Esta existência desejávamos para nós próprios homens Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem O estar-ser-inteiro inicial das coisas – Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece E também à treva interior por que somos habitados E dentro da qual navega indicível o brilho
De um amor morto
De um amor morto fica
um pesado tempo quotidiano
onde os gestos se esbarram ao longo do ano.
De um amor morto não fica
nenhuma memória
o passado se rende
o presente o devora
e os navios do tempo
agudos e lentos
o levam embora.
Pois um amor morto não deixa
em nós seu retrato
de infinita demora
é apenas um facto
que a eternidade ignora
de Dual, 1972
em Obra Poética III, Caminho, 2ª edição; 1996
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