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Poetas do Mundo - Portugal - Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 -2004)  
 
 de "Dual"

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino

Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule

Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos

Para que a sua espinha fosse tão direita

E ela usasse a cabeça tão erguida

Com uma tão simples claridade sobre a testa

Foram necessárias sucessivas gerações de escravos

De corpo dobrado e grossas mãos pacientes

Servindo sucessivas gerações de príncipes

Ainda um pouco toscos e grosseiros

Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente

Para que ela fosse aquela perfeição

Solitária exilada sem destino

 

Os Gregos

Aos deuses supúnhamos uma existência cintilante
Consubstancial ao mar à nuvem ao arvoredo à luz
Neles o longo friso branco das espumas o tremular da vaga
A verdura sussurrada e secreta do bosque o oiro erecto do trigo
O meandro do rio o fogo solene da montanha
E a grande abóbada do ar sonoro e leve e livre
Emergiam em consciência que se vê
Sem que se perdesse o um-boda-e-festa do primeiro dia –
Esta existência desejávamos para nós próprios homens
Por isso repetíamos os gestos rituais que restabelecem
O estar-ser-inteiro inicial das coisas –
Isto nos tornou atentos a todas as formas que a luz do sol conhece
E também à treva interior por que somos habitados
E dentro da qual navega indicível o brilho

De um amor morto

De um amor morto fica

um pesado tempo quotidiano

onde os gestos se esbarram ao longo do ano.

 

De um amor morto não fica

nenhuma memória

o passado se rende

o presente o devora

e os navios do tempo

agudos e lentos

o levam embora.

 

Pois um amor morto não deixa

em nós seu retrato

de infinita demora

é apenas um facto

que a eternidade ignora

 

de Dual, 1972

em Obra Poética III, Caminho, 2ª edição; 1996


 
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