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Poetas do Mundo - Portugal - Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 -2004)  
 
 de "No Tempo Dividido"

VI

Não te chamo para te conhecer

Conheço tudo à força de não ser

 

Peço-te que venhas e me dês

Um pouco de ti mesmo onde eu habite

 

Prece

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

 

Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.

 

Eu contarei

Eu contarei a beleza das estátuas –

Seus gestos imóveis ordenados e frios –

E falarei do rosto dos navios

 

Sem que ninguém desvende outros segredos

Que nos meus braços correm como rios

E enchem de sangue a ponta dos meus dedos.

 

de No Tempo Dividido, 1954

de Obra Poética II, Caminho, 2ª edição, 1996


 
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