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Poetas do Mundo - Portugal - Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 -2004)  
 
 de "Dia do Mar"

Jardim Perdido

Jardim perdido, a grande maravilha

Pela qual eternamente em mim

A tua face se ergue e brilha

Foi esse teu poder de não ter fim,

Nem tempo, nem lugar e não ter nome.

Sempre me abandonaste à beira duma fome,

As coisas nas tuas linhas oferecidas

Sempre ao meu encontro vieram já perdidas.

Em cada um dos teus gestos sonhava

Um caminho de estranhas perspectivas,

E cada flor no vento desdobrava

Um tumulto de danças fugitivas.

Os sons, os gestos, os motivos humanos

Passaram em redor sem te tocar,

E só os deuses vieram habitar

No vazio infinito dos teus planos.

 

Um dia

Um dia mortos, gastos voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nossos membros lassos

A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.

 

As imagens transbordam

As imagens transbordam fugitivas

E estamos nus em frente às coisas vivas.

Que presença jamais pode cumprir

O impulso que há em nós, interminável,

De tudo ser e em cada flor florir?

de Dia do Mar, 1947

em Obra Poética I, Caminho, 2ª edição, 1996


 
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