Descrição da Guerra em Guernica

Guernica- Pablo Picasso (1937)
I
Entra pela janela o anjo camponês; com a terceira luz na mão; minucioso, habituado aos interiores de cereal, aos utensílios que dormem na fuligem; os seus olhos rurais não compreendem bem os símbolos desta colheita: hélices, motores furiosos; e estende mais o braço; planta no ar, como uma árvore, a chama do candeeiro.
II
As outras duas luzes são lisas, ofuscantes; lembram a cal, o zinco branco nas pedreiras; ou nos umbrais de cantaria aparelhada; bruscamente; a arder; há o mesmo branco na lâmpada do tecto; o mesmo zinco nas máquinas que voam fabricando o incêndio; e assim, por toda a parte, a mesma cal mecânica vibra os seus cutelos.
III
Ao alto; à esquerda; onde aparece a linha da garganta, a curva distendida como o gráfico dum grito; o som é impossível; impede-o pelo menos o animal fumegante; com o peso das patas, com os longos músculos negros; sem esquecer o sal silencioso no outro coração: por cima dele; inútil; a mão desta mulher de joelhos entre as pernas do touro.
IV
Em baixo, contra o chão de tijolo queimado, os fragmentos duma estátua; ou o construtor da casa já sem fio de prumo, barro, sestas pobres? quem tentou salvar o dia, o seu resíduo de gente e poucos bens? opor à química da guerra, aos reagentes dissolvendo a construção, as traves, este gládio, esta palavra arcaica?
V
Mesa, madeira posta próximo dos homens: pelo corte da plaina, a lixa ríspida, a cera sobre o betume, os nós; e dedos tacteando as últimas rugosidades; morosamente; com o amor do carpinteiro ao objecto que nasceu para viver na casa; no sítio destinado há muito; como se fosse, quase, uma criança da família.
VI
O pássaro; a sua anatomia rápida; forma cheia de pressa, que se condensa apenas o bastante para ser visível no céu, sem o ferir; modelo doutros voos: nuvens; e vento leve, folhas; agora, atónito, abre as asas no deserto da mesa; tenta gritar às falsas aves que a morte é diferente: cruzar o céu com a suavidade dum rumor e sumir-se.
VII
Cavalo; reprodutor de luz nos prados; quando respira, os brônquios; dois frémitos de soro; exalam essa névoa que o primeiro sol transforma numa crina trémula sobre pastos e éguas; mas aqui marcou-o o ferro dos lavradores que o anjo ignora; e endureceu-o de tal modo que se entrega; como as bestas bíblicas; ao tétano; ao furor.
VIII
Outra mulher: o susto a entrar no pesadelo; oprime-a o ar; e cada passo é apenas peso: seios donde os mamilos pendem, gotas duras de leite e medo; quase pedras; memória tropeçando em árvores, parentes, num descampado vagaroso; e amor também: espécie de peso que produz por dentro da mulher os mesmos passos densos.
IX
Casas desidratadas no alto forno; e olhando-as, momentos antes de ruírem, o anjo desolado pensa: entre detritos sem nenhum cerne ou água, como anunciar outra vez o milagre das salas; dos quartos; crescendo cisco a cisco, filho a filho? as máquinas estranhas, os motores com sede, nem sequer beberam o espírito das minhas casas; evaporaram-no apenas.
X
O incêndio desce; do canto superior direito; sobre os sótãos, os degraus das escadas a oscilar; hélices, vibrações, percutem os alicerces; e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona toda a arquitectura; as paredes áridas desabam mas o seu desenho sobrevive no ar; sustém-no a terceira mulher; a última; com os braços erguidos; com o suor da estrela tatuada na testa
de Entre duas memórias, 1971
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