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Poetas do Mundo - Polónia - Wislawa Szymborska (1923 - 2012)  
 
 de "Paisagem com Grão de Areia"

Álbum

 

Na minha família ninguém morreu de amor.

Se alguma coisa houve não passou de historieta.

Tísicas de Romeu? Difterias de Julieta?

Alguns envelheceram até ganhar bolor.

Ninguém a definhar por falta de resposta

a uma carta molhada e dolorosa.

Apareceu sempre por fim algum vizinho

com lunetas e uma rosa.

Ninguém a desfalecer no armário de asfixia

de algum marido voltando sem contar.

E os mantos e os folhos e as fitas de apertar

a nenhuma impediram de ficar na fotografia.

E nunca no espírito satânico de Bosch!

E nunca pelos quintais de arma em punho!

De bala na cabeça teve a morte outro cunho

e em macas de campanha alguém os trouxe.

De olheiras fundas como após a grande folia,

até esta aqui de carrapito extático,

se fez ao largo em grande hemorragia

mas não por ti, ó bailarino, e com viático.

Talvez antes do daguerreótipo, alguém,

mas nos deste álbum, ninguém, que eu verifique.

Tristezas dissiparam-se, os dias sucederam-se,

e eles, reconfortados, sumiram-se de gripe.

 

 

 

Elogio dos sonhos

 

Nos sonhos

pinto como Vermeer Van Delft.

 

Falo grego com fluência

e não apenas com os vivos.

 

Conduzo um automóvel

que me é obediente.

 

Sou hábil,

escrevo grandes poemas.

 

Escuto vozes

tão bem como os antos mais austeros.

 

Ficaréies admirados

da perfeição com que toco piano.

 

Consigo voar como devia ser,

isto é, eu de mim própria.

 

Ao cair de um telhado

sei como descer lentamente na verdura.

 

Não me lamento:

consegui descobrir a Atlântida.

 

Fico contente porque, antes de morrer,

consigo acordar sempre.

 

A guerra a rebentar

e eu a virar-me para o melhor lado.

 

Sou, sem ter porém

que o ser, filho da época.

 

aqui há alguns anos

vi dois sóis.

 

e, antes de ontem, um pinguim,

ali, muito nítido, ao pé de mim.

 

 

 

Vida na expectativa

 

Vida na expectativa.

Espectáculo sem ensaios.

Corpo sem tirar medidas.

Cabeça sem reflexão.

 

Não sei o papel que desempenho.

Sei apenas que é o meu, intransmissível.

 

É já em cena que tenho de adivinhar

de que trata a peça.

 

Debilmente preparada para a honra que é a vida,

dificilmente aguento o tempo de acção que me é imposto.

Lá vou improvisando embora deteste improvisar.

Passo a passo tropeço no desconhecimento das coisas.

O meu modo de vida cheira-me a provincianismo.

Os meus instintos são crasso amadorismo.

O medo do palco, explicando-me, ainda me humilha mais.

Os factores atenuantes parecem-me cruéis.

 

Palavras e gestos sem regresso,

estrelas por contar,

o carácter – um casaco à pressa abotoado,

são os deploráveis efeitos desta urgência.

 

Treinar ao menos uma quarta-feira,

ou repetir uma quinta ao menos uma vez!

E já lá vem a sexta com um guião que ignoro.

Está como deve ser – pergunto

(com um pigarro na voz

pois nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

 

È ilusória a ideia de que é só um exame rápido

realizado em sala provisória. Não.

Fico de pé diante do cenário e dou conta da sua solidez.

Impressiona-me o rigor de cada adereço.

o palco rotativo há já muito que funciona.

Já estão acesas até as mais distantes nebulosas.

Não tenho quaisquer dúvidas que se trata da estreia!

E, seja o que for que eu faça,

para sempre se transforma no que eu fiz.

 

 

 

A preparação do currículo

 

Que é preciso?

È preciso fazer um requerimento

e ao requerimento anexar o currículo.

 

Independentemente da duração da vida,

o currículo deve ser curto.

 

É obrigatória a concisão e boa selecção dos factos,

transformar as paisagens em endereços,

e vagas recordações em datas fixas.

 

De todos os amores o conjugal é quanto basta,

e quanto aos filhos só os que nasceram.

 

Mais importante que quem conheces é de quem és conhecido.

Viagens só se ao estrangeiro.

A que aderiste mas sem dizeres porquê.

Distinções sem motivo.

 

Escreve como se nunca tivesses falado contigo próprio

e te evitasses ao passares por ti.

 

Omite o silêncio dos cães, dos gatos e das aves,

cacaréus de lembrança, sonhos e amigos.

 

Valoriza mais o preço que o valor

e o título que o texto.

Antes o número que calça que aonde vai

esse atrás de quem tu andas.

 

A fotografia de orelhas descobertas.

Importa o seu formato e não o que elas ouvem.

Que ouvem elas?

O estrépito das máquinas triturando papel.

 

 

 

 Despedida da paisagem

Não quero mal à Primavera
por ela aí estar de novo.
Não a culpo por,
como em cada ano,
cumprir as suas obrigações.

Compreendo que a minha tristeza
não detém a vegetação.
O cálamo se vacila
é só ao vento.

Não me causa dor
que sobre a água os tufos de amieiros
de novo tenham com que ramalhar.

Tomo em consideração
que, como se vivesses ainda,
a margem de certo lago
permaneça linda como foi.

Nada tenho contra
esta vista, à vista
da baía esplendorosa de sol.

Consigo até imaginar
que outros que não nós
se sentem neste momento
no tronco do pinheiro derrubado.

Respeito o seu direito
ao murmúrio, ao riso,
a um silêncio feliz.

Apostaria mesmo
que o amor os une
e que ele a envolve
com um braço vivo.

A passarada nova
rumoreja nos caniços.
Sinceramente lhes desejo
que a ouçam.

Não peço qualquer mudança
às ondas de junto à margem.
desenvoltas, preguiçosas,
rebeldes ao meu querer.

Nada exijo
aos fundos da água sob o bosque,
safira agora
e logo esmeralda
e logo negros.

Com uma coisa não concordo.
Em regressar lá.
Desisto dele -
do privilégio da presença.

Pois quanto baste eu Te sobrevivi,
apenas quanto baste,
para pensar com distância.

 

 

Trad. Júlio Sousa Gomes


de Paisagem com Grão de Areia,Relógio d'Água, 1998

 


 
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