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Poetas do Mundo - Portugal - Natércia Freire (1919 - 2004)  
 
 

 

Forte. Sou pó e estou forte!

Leva-me o vento e regresso.

subo na cruz e estremeço

desde o sul até ao norte.

 

Quem poderá reunir

o meu nada repartido?

Que vestido há-de vestir,

quem não precisa de vestido?

 

Corpo!? Que corpo hei-de querer?

Delgado, fino, alongado?

Corpo feito para jazer

ou para andar embarcado?

 

Ao corpo de ser mulher

está-me o corpo habituado.

 

Limite que se desenhe

é muro de alta prisão.

O pó que sou, me constrói.

O corpo que sou, me dói.

Dispersa é que sou herói

no campo da dispersão.

Sobre ele, cresçam os planos.
Tombem luzes. Pule o vento.

 

Cantem na treva os pianos.

 

Cantem flores, no movimento

da noite para a manhã

por sobre o leito dos mortos.

 

Para a glória de ser pó

é que os mistérios são portos.

 

 

 

de Vento, Sombra de Vozes / Viento Sombra de Voces- Antologia de Poesia Ibérica;

Ed. CELYA, Salamanca, 2004

 


 
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