Pó
Pó
Forte. Sou pó e estou forte!
Leva-me o vento e regresso.
subo na cruz e estremeço
desde o sul até ao norte.
Quem poderá reunir
o meu nada repartido?
Que vestido há-de vestir,
quem não precisa de vestido?
Corpo!? Que corpo hei-de querer?
Delgado, fino, alongado?
Corpo feito para jazer
ou para andar embarcado?
Ao corpo de ser mulher
está-me o corpo habituado.
Limite que se desenhe
é muro de alta prisão.
O pó que sou, me constrói.
O corpo que sou, me dói.
Dispersa é que sou herói
no campo da dispersão.
Sobre ele, cresçam os planos. Tombem luzes. Pule o vento.
Cantem na treva os pianos.
Cantem flores, no movimento
da noite para a manhã
por sobre o leito dos mortos.
Para a glória de ser pó
é que os mistérios são portos.
de Vento, Sombra de Vozes / Viento Sombra de Voces- Antologia de Poesia Ibérica;
Ed. CELYA, Salamanca, 2004
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