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Poetas do Mundo - Portugal - António Franco Alexandre (1944  
 
 de " A Pequena Face"

fico aguardando telegramas, os azuis
recados.
os poderes da manhã já pouco duram.
à superfície o som move na boca

um pouco sopro.
não julgues que me importam as roldanas
do tempo no teu
corpo

são certos os abismos de cartão
e falsa a neve que nos cobre os passos.
de graça a terra nos dispõe na foto
e a idade inventa nomes que a dissipem

descobre-me impacientes os recados o
envelope da urgência o intervalo

 

 

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substituo por palavras: por estas palavras,

um minúsculo círculo do corpo. a sua idade

é um alheio modo de ignorar o vento, os

muros, as coisas teimosamente

agarradas à cal, como se um mundo

inteiro as visitasse.

 

fico sombrio apenas numa imagem

que as tesouras riscaram, e o pó

tornou sensível aos seus dedos, ao brilho

invulgar dos teus ombros. a memória

sobe depressa à tona de água, e nós,

atentos, respiramos ao fundo.

 

agora a tua boca mesma dissolveu-se

nos frágeis, só aparentemente frágeis

ramos ao lume,

a água esfria no silêncio redondo, e só

recordo o que nunca soubera.

desejaria perder os sentidos desta

 

dor pequena diante da brancura.

 

 

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esta esquisita prova me tentou

de tecer um rumor entre muros de água

osso de terra calcinada

o jugo

 

culpado me castigo com engenho

e da voz desenhada do artifício

restos de pele antiga

no laço da armadilha

 

em silêncio me muro e me demoro

no cálculo de rotas inexactas

 

um duro arbítrio quer que me desprenda

dos cinco ou mais sentidos

vou ser livre na terra desnudada

vou dizer o que sei como quem mente.

de A Pequena Face, Assírio & Alvim, 1983


 
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