"Os marinheiros tinham apanhado o albatroz, e a ave, coitada, habituada a sobrevoar livremente as ondas, não sabia andar no convés do navio, tropeçava nas asas. É o que acontece com todos nós, os que voámos alguma vez. Fica-se a vida inteira a tropeçar nas asas, e a dar com a cabeça na gaiola."
"Black Box/Chambre Noirecomeçou por ser um conjunto de desenhos de grande formato que Kentridge trabalhou para os cenários da Flauta Mágica de Mozart. Esse trabalho foi o ponto de partida para este filme em que Kentridge usa o desenho, objectos cinéticos e o teatro miniatura para registar um processo mais que um resultado. O conceito de Black Box/Chambre Noire está associado ao teatro, à fotografia mas também à caixa negra dos aviões em que ficam registados todos os momentos do voo e do acidente. Kentridge continua a trabalhar sobre a temática que lhe é cara: a História e o sentido da História, os processos de dor, culpa e expiação. Neste processo de criação de sentidos, Kentridge revela os processos construtivos da representação."
"O que eu queria dizer, a quem poderia dizê-lo? Encostei-me à janela, olhando a noite. Quanto mais a vida parece nossa, e é mesmo a nossa, mais pessoas se misturam nela. E, quantas mais pessoas se misturam nela, mais temos que dizer sem ter a quem. Porque é impossível falar dela aos outros, sem mostrar até que ponto há ainda outros que estão envolvidos, às vezes sem sequer saberem que o estão. Por isso, talvez, é que as pessoas falavam tanto, sem dizer nada, precisamente para disfarçarem quanto sabiam, e para não revelarem, nem a si mesmas, os segredos de que eram depositárias. Ou se abandonavam às ordens de alguém, ou de uma igreja, ou de um grupo, ou do que achavam que seria o acaso, para não se sentirem responsáveis por tamanho peso de vidas alheias. Ou ao amor..."
Sou um efémero e não excessivamente descontente cidadão duma metrópole que julgam moderna porque foi evitada toda a estereotopia no mobiliário e na fachada das casas, como no plano geral da cidade, aqui não ficou rasto de nenhum momento de superstição. A moral e a língua enfim reduzidas à sua expressão mais simples! Estes milhões de pessoas que não têm qualquer necessidade de se conhecerem, levam com tal paralelismo a educação, a profissão e a velhice, que o seu tempo de vida deve ser muitas vezes inferior àquela que uma estatística louca encontrou para os povos do continente. Tal como, desde a minha janela, vejo novos fantasmas deslizando pelo espesso e contínuo fumo de carvão, - nossa sombra campestre, nossa noite de estio! – novas Erínias diante do cottage campestre que é toda a minha pátria e todo o meu afecto, já que tudo aqui é igual a si mesmo, - uma Morte sem lágrimas, nossa activa filha e criada, um Amor desesperado e um lindo crime ganindo na lama da rua.
And would it have been worth it, after all, After the cups, the marmalade, the tea, Among the porcelain, among some talk of you and me, Would it have been worth while, To have bitten off the matter with a smile, To have squeezed the universe into a ball To roll it toward some overwhelming question, To say: “I am Lazarus, come from the dead, Come back to tell you all, I shall tell you all”— If one, settling a pillow by her head, Should say: “That is not what I meant at all. That is not it, at all.”
And would it have been worth it, after all, Would it have been worth while, After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets, After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor— And this, and so much more?— It is impossible to say just what I mean! But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen: Would it have been worth while If one, settling a pillow or throwing off a shawl, And turning toward the window, should say: “That is not it at all, That is not what I meant, at all.”
Uma borboleta, um colar de coral o rapaz não quer saber de competência. Está por agora aqui amanhã pode sentar-se noutro lado não tem opinião sobre coisa nenhuma e nada nem ninguém o desconvocam do seu concílio com a indiferença. Veio de Colónia e na volta é semelhante suprimiu hamburguers com pescadores ao lado. O resvale da tarde sobre rochas não lhe prega na alma precipícios. Um ocaso onde há melancolia desperta-lhe a contra-gosto recessões e perde tempo a descobrir ao sol a loura rapariga inanimada enquanto apalpa na bolsinha a erva. No outro dia é com resignação que se saúdam e a tarde nos contunde mineral.
"Num estudo surpreendente efectuado recentemente na Europa ocidental surgiram os seguintes factos: as fêmeas casadas escolhem ter casos com machos dominantes, mais velhos, mais atraentes fisicamente, mais simétricos em aparência e casados; há maiores probabilidades de as fêmeas terem um caso amoroso se os parceiros forem subordinados, mais jovens, pouco atraentes fisicamente ou se tiverem feições assimétricas; a cirurgia estética para melhorar o aspecto de um macho aumenta as suas hipóteses de ter um caso adúltero; quanto mais atraente é um macho, menos atencioso é como pai; aproximadamente um em cada três bebés nascido na Europa ocidental é produto de uma relação adúltera.
Se acham estes factos perturbadores ou difíceis de acreditar, não se preocupem. O estudo não foi feito em seres humanos. Refere-se inteiramente a andorinhas, as aves inocentes e chilreadoras de cauda bifurcada que fazem piruetas em torno de celeiros e campos durante os meses de Verão. Os seres humanos são completamente diferentes das andorinhas. Ou será que não são?"