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Sombras Errantes
 
 sem título

Tomek Sikora

 

Enviado por at a 01-06-2006 (19:29)
Sombreados ( 0 )
 uma vírgula

O ser humano é uma abreviatura

um compêndio brevíssimo

por tudo e por nada encerrado

em laconismos do género

Sr Sra Dr Dra Excia Excmo Prof ...

 

o ser humano é um milímetro

do universo / uma piscadela

do infinito que nasce e  morre

gota a gota ou num ápice

 

mais do que palavra é uma vírgula

um pedaço de alma, uma pulsação

um disparate de esperança

 

o ser humano é um instante

um sino sem badalo / um relógio

de águas ou de areia

um destino simulado

uma alegria sem fundamento

e uma tristeza sem motivo.

Mario Benedetti

Abreviatura

versão: at

foto: Jamie Kripke

Enviado por at a 01-06-2006 (23:33)
Sombreados ( 0 )
 um cartoon

 

Enviado por marta a 02-06-2006 (15:57)
Sombreados ( 0 )
 uma citação

" na tarde que anoitece o entardecer nos prende "

Jorge de Sena

 

Enviado por at a 03-06-2006 (00:52)
Sombreados ( 2 )
 Nenhuma protecção

 

Nenhuma protecção para a viagem pelo frio deste mundo

além da linguagem,

mas a linguagem é um pano cheio de buracos.

Adonis

traduzido por Nuno Júdice e entrevistado por ALC, ontem no Mil Folhas

Enviado por at a 04-06-2006 (21:56)
Sombreados ( 2 )
 A Zanga

A palavra que disse em raiva
pesa menos que uma semente de salsa,
mas por ela passa a estrada
que leva à minha sepultura,
naquele talhão comprado
nas encostas salgadas de Truro
onde os pinheiros dominam a baía.
Estou já meio-morto que chegue,
desviado da minha própria natureza
e da minha força de viver.
Se pudesse chorar, chorava.
Mas sou velho demais para ser
a criança de alguém.
Liebchen,
com quem me vou zangar
senão nos murmúrios do amor,
essa chama áspera e irregular?

 

Stanley Kunitz

versão de Nuno Guerreiro Josué

 

Enviado por at a 05-06-2006 (23:41)
Sombreados ( 4 )
 06-06-06

o dia do Mal

foto:  Catedral de Sevilha

 

Enviado por at a 06-06-2006 (20:02)
Sombreados ( 0 )
 e, por vezes, iam buscá-la

Frésias são flores com cheiro a chá

e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as

às flores que se vendem por aí

admitia a beleza mas não o esplendor

porque são tristes as repetições

num instante se tornam saberes

e ela, aos trinta e sete anos,

prezava apenas os segredos que mesmo ditos

permanecem como segredos

 

(em certas épocas, por alguma porta esquecida

escapava-se, sonâmbula, para o pátio

que dá acesso à mata

e, por vezes, iam buscá-la

gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães

já muito longe de casa

 

tinha por hábito acender fogueiras

de que, depois se esquecia

e por isso também os aldeões

a temiam)

 

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica

intensa e aflita criança

incapaz de certezas

 

o que de mais belo soube

sempre o disse, de repente,

a alguém que não conhecia

 

 

José Tolentino Mendonça

 

Frésias

 

foto

 

Enviado por at a 07-06-2006 (17:54)
Sombreados ( 0 )
 до уже!

(...)

 

Enviado por at a 07-06-2006 (22:43)
Sombreados ( 0 )
 uma cidade estranha

A revolução repousa no metro e nos bazares.

Os prédios são feios, as pessoas tristes.

Há muitos polícias e muitos casinos. É permitido fumar.

Algumas mulheres pintam os lábios e usam saltos altos, outras não.

De vez em quando há um “sem abrigo” que sobrevive ao inverno.

Há muitas igrejas, alguns museus e poucas livrarias.

Os russos têm uma língua complicada.

Moscovo é uma cidade estranha.

 

Enviado por a 13-06-2006 (00:46)
Sombreados ( 2 )
 Esquerdas e Direitas

En realidad, en lo que somos una completa nulidad es en lo de sumar y compartir. Y lo que se nos da de perlas es restar, dividir y mordernos la yugular unos a otros.

Rosa Montero

pintura de E. Munch, escolhida por Miguel do Rosário

 

 

Enviado por at a 13-06-2006 (20:36)
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 um pouco mais de ausência

Él no dejaba de insistir, aunque eran ya otros tiempos; había menos luz alrededor, su perfil apenas destacaba en las paredes resquebrajadas, y había un poco más de ausencia en sus manos; pero él volvía a insistir, e incluso hacía ver que perdían una buena ocasión, aunque nadie se fijara en los restos que exhibía para revenderlos al mejor postor; y por eso, al cabo de unas horas, viendo que nadie se interesaba por los restos aquellos, que él hubiera entregado gustoso a cualquiera, se giraba lentamente y paso a paso volvía a su casa, con los mismos restos de siempre entre las manos.

Alberto Tugues

Técnica de venta, em Historias breves de este mundo

imagem: Diego Velázquez

Enviado por at a 13-06-2006 (23:09)
Sombreados ( 2 )
 Tristeza

A tristeza foi sempre

um dócil animal de companhia

com o qual brinquei algumas tardes.

Sem ferrar os dentes puxava-me pelo braço,

passeava comigo, nos invernos mais frios

enroscava-se a meu pés.

Em dias aziagos, para provar sua obediência,

arremessava a minha alma e trazia-a de volta

docemente empapada no seu hálito doméstico.

A tristeza foi sempre

um dócil animal de companhia

que há muito tempo adquiriu

o mau hábito de morder o dono.

 

Vicente Gallego

 

La Llamada de la Selva

via Ad Loca Infecta

versão: at

 

imagem: William Blake

Enviado por at a 14-06-2006 (14:30)
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 Ella + Louis + Billie

Ella Fitzgerald

Somewhere there's music
How faint the tune
Somewhere there's heaven
How high the moon
There is no moon above
When love is far away too
Till it comes true
That you love me as I love you

Somewhere there's heaven
It's where you are
Somewhere there's music
How near, how far
The darkest night would shine
If you would come to me soon
Until you will, how still my heart
How high the moon

Somewhere there's music
How faint the tune
Somewhere there's heaven
How high the moon
The darkest night would shine
If you would come to me soon
Until you will, how still my heart
How high the moon

The nights when you don't sleep, hmmm, Ella
Ella: The whole night you're crying
Louis: Yeah, but you can't forget her
Ella: Soon you even stop trying

 

Louis: Yes Man, you'll walk the floor, that's when it's rough
And wear out that last pair a' treaders, ha ha
Together: When you feel your (Ella:)
heart break
(Louis: [scat] Ella...)
Together:
You're learnin the blues

Dont lose your head
Then lose your guy
You cant lose a broken heart

If you ever break up
Then try to make up
Its tough to make a brand new start

Take a walk
Think it over
While strolling neath the moon
Dont say things in december
Youll regret in june

Ware your remark
Before you speak
Or you may be sorry soon,
Dont be eratic
Be diplomatic
To keep your hearts in tune

Cruel harsh words
Often spoken
Will upset your applecart
So dont lose your head
Then lose your guy
Cus, you cant lose a broken heart
No, you cant lose a broken heart!

 

 hoje no Jazz com Brancas


 

Enviado por at a 14-06-2006 (21:51)
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 Vivamente aconselhado

 

Os personagens de Millás, mulheres e homens adúlteros, oscilam entre o prazer e a culpa, o desejo e a dúvida. Em 33 contos curtos o autor explora, com sensibilidade e ironia, a essência de uma prática tão antiga quanto o próprio mundo.

 

Tempo de leitura (aproximado): 2 horas

 

Durante anos, trabalhei em escritórios mais ou menos sinistros, nos quais aconteciam adultérios de manhã à noite. Conheci casos de bigamia (uma forma patológica de adultério) de fazer arrepiar os cabelos, como o de um director de departamento que tinha formado duas famílias, uma de classe média e outra pobre, porque os seus recursos não chegavam para mais. Da família da classe média levava roupa usada e ossos de presunto para a pobre; da pobre não levava mais do que preocupações para a da classe média.

Tive um colega que quando se deitava com a  amante pensava, para se excitar, na mulher, e quando se metia na cama com a mulher apagava a luz para imaginar que estava com a amante. Contava-me isto atormentado, porque não conseguia compreender tal divergência, ainda que uma das características do adúltero seja estar sempre com os pés num sítio e a cabeça noutro. Poder-se-ia dizer que se trata de uma pessoa com problemas de concentração, ainda que paradoxalmente seja muito cuidadosa, para não deixar provas. O adúltero por vocação, o que aparece com mais frequência nestes contos, vê o adultério como um sacerdócio, o que lhe consome demasiadas energias se não acredita na salvação. Os contos mais tristes deste livro são de adúlteros que de repente perdem a fé na infidelidade (passe o paradoxo) e não sabem como substituí-la.

 

Juan José Millás

no prólogo de Contos de Adúlteros Desorientados, Temas & Debates, 2003

ler dois contos em castelhano

 

Enviado por at a 15-06-2006 (18:34)
Sombreados ( 0 )
 
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