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Sombras Errantes
 
 XX

"Mulheres fotografadas por mulheres, mulheres que se fotografam a si mesmas, mulheres fotografadas por homens, homens ou mulheres que fotografam homens que parecem mulheres e homens que se fotografam a si mesmos como mulheres."

Visões do Feminino no século XX, segundo as objectivas de 60 artistas portugueses e estrangeiros. Nos Encontros de Fotografia, a decorrer no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, até final de Maio. A entrada é gratuita.

Enviado por at a 02-04-2006 (23:41)
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 Regresso

 
Morreste tantas vezes; despedimo-nos
em cada cais,
em cada plataforma dos afastamentos,
meu amor, e regressas
com outro rosto de flor recém-aberta
e eu não te reconheço até que sinto
dentro de mim a antiga cicatriz
onde soletro o teu nome com ardor.
 
versão: at
foto: Nan Goldin
 
Enviado por at a 03-04-2006 (22:32)
Sombreados ( 1 )
 dos anjos #3

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é étero num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.

 

Natália Correia

Enviado por at a 04-04-2006 (20:48)
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 uma história mal contada

Masía de Can Gener en Sant Llorenç de la Muga (Girona) sede del <i>reformatorio</i> ilegal.Não se sabe ao certo quantos adolescentes, todos suiços e todos "rebeldes" foram enviados pelos próprios pais para um "reformatório" imundo, desumano e ilegal em Girona. Os pais pagavam, propagandeavam e ainda agradeciam. Quatro  miúdos, que não acharam lá muita graça ao castigo, fugiram e acabaram com a pouca vergonha...

 

Enviado por at a 05-04-2006 (11:30)
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 uma tarde de chuva

antes da chuva

durante a chuva

depois da chuva:

Enviado por at a 05-04-2006 (20:13)
Sombreados ( 3 )
 o texto é longo e a tradução é má mas vale a pena ler

 

 

 

 

 

 

 

 

A discriminação positiva é resposta à discriminação negativa?

 

Joan W. Scott

Enviado por at a 05-04-2006 (21:49)
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 Jantar romântico

As palavras corriam com as suas perninhas minúsculas por cima da mesa e, abrindo as asas, tentavam levantar voo. A maioria, porém, estatelava-se no chão numa confusão de ossinhos partindo-se. Tinham morte imediata.
Só duas ou três palavras sem sentido conseguiram voar. Desorientadas como insectos no meio da chuva. Dissipando-se no ar pouco depois.

 
Rui Manuel Amaral
 
 
Enviado por (descaradamente copiado por at) a 06-04-2006 (20:25)
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 céu fotografado

Daqui

Posso fotografar o céu

mutante

Fixar os instantes

sublimes

Agarrar raios de sol

fugazes

Eternizar as nuvens

errantes

Guardar as sombras

incertas

 

Depois

Posso olhar o céu fotografado

Senti-lo

invadir a minha pele cativa com

a Possibilidade

Em silêncio intacto

Sem nada a impedi-lo

 

 

(post inspirado num comentário da Rosinha, aqui)

 

Enviado por at a 07-04-2006 (15:56)
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 Áporo

do grego áporos, sem passagem, sem saída...

foto: Sergio Brunetto

Enviado por at a 08-04-2006 (22:23)
Sombreados ( 3 )
 dos anjos #4

 

 

Anjo Heurtebise, meu anjo da guarda 

Guardo-te eu, bato-te

Despedaço-te, mudo-te

De comboio, de hora.

Em guarda, estio! Desafio-te

Se és homem. Reconhece

Meu anjo de alvaiade, tua beleza

Capturada numa foto numa

Explosão de magnésio

 

Jean Cocteau

 "L' Ange Heurtebise"

 

tradução: Herberto Helder

(Ouolof, Assírio & Alvim, 1997)

 

Enviado por at a 09-04-2006 (21:26)
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 da sombra

 

Da sombra que passa
em momentos de luz
a pele como a taça
do mel que seduz

Da sombra que somos
nos dias de mar
momento em que fomos
capazes de amar

Da sombra que dou
quando olhas assim
para quem te guardou
nas sobras de mim

 

 

Sofia Loureiro dos Santos

 

foto: Stanislaw Trzaska

 

Enviado por at a 09-04-2006 (22:26)
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 escrever a quatro mãos

Nos anos 40, a dupla Boileau-Narcejac escrevia novelas policiais a quatro mãos. Boileau vivia em Paris e idealizava o enredo; Narcejac escrevia numa povoação da Bretanha. Comunicavam-se por carta, mas às vezes, quando era urgente resolver um episódio e porque as comunicações telefónicas na altura eram difíceis, recorriam ao telégrafo. A dada altura Narcejac, enquanto redigia a história, pensou que o ruído duma arma de fogo iria complicar a trama; o seu companheiro, esquecendo-se que o telegrama é um documento semi-público, respondeu-lhe: “abandonamos o revólver, experimentamos com veneno”. Uma hora depois tinha a polícia à porta.

 

 

Enviado por at a 10-04-2006 (23:18)
Sombreados ( 2 )
 de um temporal assim...

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.
 
O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,
 
disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)
 
Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

 

Maria do Rosário Pedreira

O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica, 2001

 

Enviado por at a 12-04-2006 (19:57)
Sombreados ( 2 )
 a saúde

Talvez não fossemos tão parvos se não estivessemos tão desesperadamente empenhados em não morrer.

Rosa Montero

 

Enviado por at a 13-04-2006 (15:01)
Sombreados ( 0 )
 de abismo em abismo

"A monstruosidade da dor que, emanando das figura pintadas, reveste toda a natureza e depois reflui das paisagens decrépitas e penetra nas figuras humanas mortas, esta monstruosidade entrou nesse instante em movimento, subindo e descendo dentro de mim como uma maré. E ao ver aqueles ventres trespassados, ao ver os corpos das testemunhas do suplício dobrados de aflição como vimes, fui pouco a pouco entendendo que a dor, para além de um certo ponto, embota o que é essencial à sua existência, a consciência, logo, ela própria deixa de existir...talvez – sabemos muito pouco disso. O que é certo, porém é que a dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo."

 

 

W. G. Sebald sobre os quadros de Matthias Grünewald

 

Os emigrantes, pag. 164

 

Enviado por at a 14-04-2006 (02:44)
Sombreados ( 0 )
 
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