Visões do Feminino no século XX, segundo as objectivas de 60 artistas portugueses e estrangeiros. Nos Encontros de Fotografia, a decorrer no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, até final de Maio. A entrada é gratuita.
Morreste tantas vezes; despedimo-nos em cada cais, em cada plataforma dos afastamentos, meu amor, e regressas com outro rosto de flor recém-aberta e eu não te reconheço até que sinto dentro de mim a antiga cicatriz onde soletro o teu nome com ardor.
Creio nos anjos que andam pelo mundo, Creio na deusa com olhos de diamantes, Creio em amores lunares com piano ao fundo, Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo De harmonizar as partes dissonantes, Creio que tudo é étero num segundo, Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro, Na flor humilde que se encosta ao muro, Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas, Na ocupação do mundo pelas rosas, Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.
Não se sabe ao certo quantos adolescentes, todos suiços e todos "rebeldes" foram enviados pelos próprios pais para um "reformatório" imundo, desumano e ilegal em Girona. Os pais pagavam, propagandeavam e ainda agradeciam. Quatro miúdos, que não acharam lá muita graça ao castigo, fugiram e acabaram com a pouca vergonha...
As palavras corriam com as suas perninhas minúsculas por cima da mesa e, abrindo as asas, tentavam levantar voo. A maioria, porém, estatelava-se no chão numa confusão de ossinhos partindo-se. Tinham morte imediata. Só duas ou três palavras sem sentido conseguiram voar. Desorientadas como insectos no meio da chuva. Dissipando-se no ar pouco depois.
Nos anos 40, a dupla Boileau-Narcejac escrevia novelas policiais a quatro mãos. Boileau vivia em Paris e idealizava o enredo; Narcejac escrevia numa povoação da Bretanha. Comunicavam-se por carta, mas às vezes, quando era urgente resolver um episódio e porque as comunicações telefónicas na altura eram difíceis, recorriam ao telégrafo. A dada altura Narcejac, enquanto redigia a história, pensou que o ruído duma arma de fogo iria complicar a trama; o seu companheiro, esquecendo-se que o telegrama é um documento semi-público, respondeu-lhe: “abandonamos o revólver, experimentamos com veneno”. Uma hora depois tinha a polícia à porta.
Estavas sentado e havia uma paisagem agreste nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva, os espinheiros agitados com a erosão das dunas, um mar picado, capaz de todos os naufrágios.
O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa - era a força do vento contra o corpo do navio; uma miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia; a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira dos deuses com o mundo. quando te levantaste,
disseste qualquer coisa muito breve que me feriu de morte como a lâmina de um punhal acabado de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)
Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas - de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos que as ondas espalham de madrugada pelas praias.
"A monstruosidade da dor que, emanando das figura pintadas, reveste toda a natureza e depois reflui das paisagens decrépitas e penetra nas figuras humanas mortas, esta monstruosidade entrou nesse instante em movimento, subindo e descendo dentro de mim como uma maré. E ao ver aqueles ventres trespassados, ao ver os corpos das testemunhas do suplício dobrados de aflição como vimes, fui pouco a pouco entendendo que a dor, para além de um certo ponto, embota o que é essencial à sua existência, a consciência, logo, ela própria deixa de existir...talvez – sabemos muito pouco disso. O que é certo, porém é que a dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo."