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Sombras Errantes
 
 no rasto das palavras

Quando percebeu que andara todo o tempo ao engano, sentiu uma tristeza plana. Ajustou o corpo às migalhas de calor vindas dos últimos raios de sol. Enxugou os olhos. Escreveu uns versos foleiros com rima emparelhada. Rasgou-os logo depois. Percebeu que nunca seria poeta de escrever poemas. Desenganado, passou a viver no meio da rua. Não se tem dado mal. Ninguém repara na forma abandonada como escarra na via pública.

 

 

 no rasto das palavras do Eduardo

 

 

 

 

Enviado por at a 01-11-2006 (17:54)
Sombreados ( 5 )
 Cena Campestre

A casa esperou por nós,

pensamos. O duplo renque de árvores

acena-nos que nos cheguemos. Num sussurro,

o rio vai escorregando cheio

entre as margens.

 

À hora exacta, o sol vai esconder-se

por trás dos campos. A escuridão

envolve a casa que nos protege.

Acendemos o fogo, bebemos

entre as paredes.

 

Vendi-me inteira à

segurança e debruço-me da janela.

Dormem cavalos e galos, a água

pisca o olho à lua, e eu a pagar,

sempre a pagar.

 

Anna Enquist

foto: Andreas Allgeyer

Enviado por at a 02-11-2006 (20:31)
Sombreados ( 1 )
 um barco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A chuva

 

acinzentava

 

o dia todo

 

molhado.

 

 

outra margem

 

frágil sombra

 

mergulhada

 

na neblina.

 

 

Um barco

 

flutuava

 

no reflexo

 

que o sustinha.

 

 

Enviado por at a 04-11-2006 (22:54)
Sombreados ( 5 )
 Volver

Volver, de Pedro Almodóvar, foi nomeado em seis categorias, para os prémios da Academia de Cinema Europeu: melhor filme, melhor actriz (Penélope Cruz), melhor realizador, melhor argumento, melhor compositor (Alberto Iglesias) e melhor director de fotografia (José Luis Alcaine). Não vi os outros filmes nomeados mas Volver é verdadeiramente fantástico.

 

Enviado por at a 05-11-2006 (02:24)
Sombreados ( 0 )
 Ideas que mueven el mundo

a não perder, no Babelia.

destaco três artigos: La tormenta de las ideas;Globalización e Progreso.

 

Enviado por at a 05-11-2006 (02:32)
Sombreados ( 0 )
 dos muros #17

 

Sem circunspecção, sem mágoa, sem pejo

Grandes e altos em redor de mim construíram muros.

 

E fico e desespero agora no que vejo.

Não penso noutra coisa: na minha mente esta sina rasga furos;

 

Porque tantas coisas havia a fazer lá fora por ti.

Quando construíam os muros como é que não reparei, ah.

 

Mas nunca o estrondo de pedreiros ou som ouvi.

Imperceptivelmente cerraram-me do mundo que está lá.

 

 

Konstantínos Kaváfis

 

Muros

 

tradução: Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis

imagem: Bruce Nauman

 

Enviado por at a 05-11-2006 (21:53)
Sombreados ( 0 )
 Retrato em Branco e Preto

 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto, evito tanto
E que no entanto volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo feito um tolo,
Procurar o desconsolo
Que eu cansei de conhecer
Novos dias tristes,
Noites claras, versos, cartas
Minha cara, ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

Tom Jobim e Chico Buarque

versão acústica na voz magnífica de Ana Carolina para ouvir na estrada numa tarde de chuva

Enviado por at a 06-11-2006 (22:52)
Sombreados ( 0 )
 carácter provisório

 

"Toda a sua pessoa parecia não ser mais do que uma ponta solta, um acrescento efémero, um nó que seria desatado quando já não fosse preciso.

(...)

Também ali ele era apenas um botão quase a cair, que ninguém se dava ao trabalho de coser bem, porque de antemão já se sabia que o casaco não seria usado por muito mais tempo. Sim, a sua existência não era mais do que um casaco provisório, um fato que não cai bem."

 

 

 

Robert Walser

 

O Ajudante, Relógio D’Água, 2006

 

tradução: Isabel Castro Silva

 

foto: Robert Discalfani

Enviado por at a 07-11-2006 (00:20)
Sombreados ( 0 )
 Nocturno Vulgar

O vento abre fendas operádicas nos tabiques, - verga os telhados carcomidos, dispersa os limites do lar, eclipsa as janelas.
   Ao longo da vinha, tendo apoiado o pé numa gárgula, salto para este coche cuja época está bem caracterizada pelos espelhos convexos, os painéis abaulados e os sofás pregueados. Carro funerário do meu sono, isolado, cabana de pastor do meu nada, o veículo guina sôbre a relva da estrada real desaparecida. Numa falha no alto do espêlho à direita turbilhonam lívidos rostos lunares, folhas, seios.
   Um verde e um azul muito escuros invadem a imagem. Desatrelagem junto à mancha branca de um monte de areia.
   - Aqui vão assobiar à tempestade, às Sodomas e às Solimas, aos animais ferozes e às armadas.
   - (Postilhões e feras de pesadêlo recomeçarão, sob as mais sufocantes tapadas, para me afundarem até aos olhos na fonte de seda.)
   - Para que nos mandem, a chicote através das águas encapeladas e das bebidas esparsas, rolar sôbre o uivar dos mastins...
   - Um sopro dispersa os limites do lar.

 

 

 

Arthur Rimbaud

 

illuminations

 

(versão de Mário Cesariny enviada por João M.)

foto: Michael Ackerman

Enviado por at a 08-11-2006 (21:41)
Sombreados ( 0 )
 um estudo rigoroso

Um leitor e uma leitora atentos comentam na Sábado desta semana um dos resultados finais do estudo “rigoroso” que classifica os hospitais doença a doença:

 

 

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública ordenou em 3º melhor, na psiquiatria, o Hospital Pulido Valente, que não dispõe de serviço de Psiquiatria nem de médicos psiquiatras. Concluo que se descobriu, enfim, o maná. Para satisfação de todos, principalmente dos economistas e gestores, já é possível fazer omeletas sem ovos, caçar com gato e fazer sopas só com a pedra. Quem fará o ranking dos avaliadores?

 

Manuel Costa Guerreiro

 

 

(...) pela mesma lógica, a melhor investigação é a que não existe: não tem custos, não erra e não tem consequências, o que infelizmente não é o caso.

 

Maria Antónia Frasquilho

 

Enviado por at a 10-11-2006 (00:04)
Sombreados ( 1 )
 Tu bruma

No confundas la noche con tu noche, la bruma
con tu bruma.
Bebe tu soledad, camina
por las altas cornisas donde la angustia llueve
a veces.
Piénsate vencido.
Noche y bruma, así, sin adjetivo, son otras.
Otros cuerpos habitan sus dominios, no
tu noche: ella jamás podrá dejar sus ruinas
en el jardín ajeno, en el corazón algo turbio de los otros.

No confundas la noche que vives con la noche.
Es tuya solamente: antigua propiedad que odias a veces.

 

Manuel Rico

De viejas estaciones invernales

hoje na antología de Babel

foto

 

Enviado por at a 11-11-2006 (14:09)
Sombreados ( 0 )
 Vórtice do Lixo

Alcatruz lançou na calha este artigo

Ler mais e pensar melhor antes de puxar o autoclismo...

 

 

Enviado por at a 12-11-2006 (00:30)
Sombreados ( 0 )
 I'm an extraordinary machine

If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine

Fiona Apple

extraordinary machine

Enviado por at a 13-11-2006 (18:21)
Sombreados ( 0 )
 Camelo

Encarregaram-me de escoltar um carregamento considerável. Ignoro o que transportavam.

Ao princípio julguei que alguém era o chefe. A mim só me vinham chamar para certas ordens, dessas que um estrangeiro pode dar.

Às vezes a caravana passava por outras caravanas.

Esses cruzamentos eram a nossa inquietude, a nossa tristeza, a nossa alegria, o nosso enriquecimento, a nossa perda, o nosso espanto, a nossa confusão. Também as nossas esperanças.

Os camelos de passo elástico eram o acompanhamento do nosso mal-estar. Embaraçosa distracção, levavam-nos a pensar ”camelo”.

 

 

Henri Michaux

 

"A Escolta"

 

tradução: Margarida Vale de Gato

em Antologia- Henri Michaux, Relógio D’Água, 1999

 

 

foto: Henry Horenstein

 

Enviado por at a 14-11-2006 (23:54)
Sombreados ( 0 )
 tudo era cinzento e molhado

Eram dias de chuva e tempestade, aqueles, mas ainda assim tinham o seu encanto. A sala estava triste e acolhedora. A chuva e o frio lá fora tornavam-na mais amigável. As folhas amarelas e vermelhas ardiam, reluziam febrilmente no cinzento enevoado da paisagem. As folhas das cerejeiras eram de um vermelho de fogo, de ferida e dor, mas eram belas, e por isso traziam uma alegria reconciliadora. Muitas vezes as árvores e os campos pareciam cobertos por véus e lençóis de água, acima e abaixo, ao longe e ao perto, tudo era cinzento e molhado. Atravessar aquela paisagem era como caminhar por um sonho turvo. E, porém, este tempo e esta espécie de mundo eram uma expressão de uma serenidade secreta. Cheirava-se as árvores ao passar por elas, ouvia-se os frutos maduros que caíam nos campos e pelo caminho. Tudo parecia mergulhado num silêncio duas e três vezes maior. Os ruídos pareciam dormir ou ter medo do seu som. Cedo pela manhã ou à noitinha ressoava sobre o lago o silvo arrastado das sereias de nevoeiro que avisavam os barcos lá fora. Pareciam os ganidos de animais desamparados. Sim, havia bastante nevoeiro. Pelo meio surgia um ou outro dia bonito. E havia também dias, dias exemplares de Outono, que não eram bonitos nem feios, nem particularmente amigáveis nem particularmente tristes, nem soalheiros nem sombrios, antes dias que se mantinham igualmente claros e escuros de manhã à noite, em que a imagem do mundo era a mesma às quatro da tarde ou às onze da manhã, em que tudo permanecia tranquilo e ouro velho e um pouco aflito, em que as cores se recolhiam e sonhavam para si mesmas.

 

 

Robert Walser

 

O Ajudante, Relógio D’Água, 2006

 

tradução: Isabel Castro Silva

 

Enviado por at a 15-11-2006 (20:51)
Sombreados ( 0 )
 
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