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Sombras Errantes
 
 outro diálogo

Erramos pelo poema, peregrinos

em busca das palavras que se escapam

ao silêncio da voz aprisionada.

 

   Divagamos pelas palavras, perdidos

   em busca do poema que nos livra

   da voz silenciada no medo.

 

Erramos pelo mundo, penitentes

por pecados que nos dedos viajantes

nos embalam como luz enfeitiçada.

 

   Divagamos pela terra, indiferentes

   ao sofrimento que dos rostos emigrantes

   nos chega como sombra velada.

 

Queremos e corremos,

sem dor ou método, vivemos

do amor com que matamos e morremos.

 

   Comemos e bebemos,

   sem sabor ou vontade, fodemos

   sem amor nem verdade, morremos.

 

 

a partir deste sombreado da Sofia Loureiro dos Santos

imagens: Odd Nerdrum

Enviado por at a 01-10-2006 (00:29)
Sombreados ( 3 )
 Livros e Internet

Lectura carnal y lectura virtual no se oponen, como no se oponen el correo electrónico y la caricia, la webcam y el encuentro cuerpo a cuerpo 

 

Enviado por at a 01-10-2006 (01:06)
Sombreados ( 0 )
 ao estilo rococó

Como balouça pelos ares no espaço

entre arvoredo que tremula e saias

que lânguidas esvoaçam indiscretas!

Que pernas se entrevêem, e que mais

não se vê o que indiscreto se reclina

no gozo de escondido se mostrar!

Que olhar e que sapato pelos ares,

na luz difusa como névoa ardente

do palpitar de entranhas na folhagem!

Como um jardim se emprenha de volúpia,

torcendo-se nos ramos e nos gestos,

nos dedos que se afilam, e nas sombras!

Que roupas se demoram e constrangem

o sexo e os seios que avolumam presos,

e adivinhados na malícia tensa!

Que estátuas e que muros balouçam

nessa vertigem de que as cordas são

tão córnea a graça de um feliz marido!

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!

Como ele a despe e como ela resiste

no olhar que pousa enviesado e arguto

sabendo quantas rendas a rasgar!

Como do mundo nada importa mais!

 

Jorge de Sena

 

“O Balouço”, de Fragonard

 

de Obras de Joge de Sena - Antologia Poética, ASA, 1999

 

Enviado por at a 02-10-2006 (15:53)
Sombreados ( 0 )
 cães à solta

Atenção: fixem bem este grupo. São perigosos e não se deixam apanhar. Espero que continuem assim, rebeldes e criativos.

 

A última peça “ A cidade” é muito boa. São 4 actores em palco. Começam por se encontrar num espaço vazio. Um espaço amplo onde as pessoas vagueiam sem comunicar. Dialogam sem conversar. Um espaço que vai sendo ocupado pelas notícias. Uma cidade mediática construída a um ritmo alucinante. Hilariante. Noticias diárias que banalizam a violência  e o amor. Angustiante. Pedaços de notícias vão criando uma barreira entre os actores e os espectadores. Asfixiante. Quando a falta de ar é premente, é preciso parar e derrubar o muro. Mas, sem o mundo mediático que espaço resta? Ainda será possível comunicarmos uns com os outros? Estaremos todos irremediavelmente loucos? Como recuperar o eu? Como encontrar o outro?

 

A representação é excelente. O espaço resulta bem, intimista. A encenação, as luzes e o som são primorosos.

 

Está prevista mais uma actuação no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, no próximo fim-de-semana.

 

foto

Enviado por at a 02-10-2006 (17:40)
Sombreados ( 0 )
 Só uma vez

Só uma vez agarrei esse momento

em que alguma coisa começa

mesmo, ao centésimo de segundo.

O meu coração parou por um

centésimo de segundo, as veias

todas pararam e um cabelo

rompeu, primaveril, na cabeça.

 

Alguém fugira num labirinto

e por todo o tempo da vida

se enganou sem remédio, era

um daqueles casos em que o tempo

era espaço. E o amor era miragem.

 

E deixo eu o que estou a fazer,

por mais importante que seja,

para ir completar o que falta

num poema? Pois deixo, imagine-se:

o que falta num poema. Sem juízo

não se faz o que antes se fazia.

 

Esse centésimo de segundo demorou

uma eternidade, aproveitei

para cantar um hino à imortalidade

dos grandes poetas, dentro desse segundo

depois te amei desalmadamente.

 

 

Helder Moura Pereira

 

de Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, 2005

 

foto

 

Enviado por at a 03-10-2006 (20:25)
Sombreados ( 0 )
 poema de outono numa fronteira

Há um penacho

de fumo cor

de carne pálida no azul

 

do céu. Círculos

de prata

enlaçam espaçadamente

 

a estrutura amarela de

tijolos e refulgem

nesta luz

 

ambarina – não

do sol não do

pálido sol mas

 

do seu irmão

legítimo

o outono

 

William Carlos Williams

 

tradução: José Agostinho Baptista

 

de Antologia Breve, Assírio & Alvim, 1995

 

 

esta foto de Ciudad Rodrigo, lembrou-me o outono e outras fronteiras

 

Enviado por at a 03-10-2006 (20:35)
Sombreados ( 0 )
 dos muros #15

Moisés Yagues

Ainda ontem, 700 pessoas tentaram saltar o muro que separa Marrocos de Melilla. O muro cresceu mas sempre há quem não desista.

 

 

Enviado por at a 03-10-2006 (21:12)
Sombreados ( 0 )
 A NÉVOA

Às vezes a minha aldeia

fica presa dentro da névoa

e os pássaros em silêncio sobre os ramos

olham o céu sujo

como o observas tu

dentro do teu carro.

 

Tonino Guerra

 

de Histórias para Uma Noite de Calmaria, Assírio & Alvim, 2002

 

foto: Carmelo Bongiorno

 

Enviado por at a 04-10-2006 (20:20)
Sombreados ( 0 )
 que caca de vida!

 

Ontem vi um programa na televisão sobre apanhadores de cocó. Perguntaram a um profissional com experiência se ele preferia passar a vida a apanhar cocó ou passar 12 horas seguidas a lidar com pessoas – “apanhar cocó”, respondeu sem hesitar.

 

 

 

 

Enviado por at a 05-10-2006 (11:40)
Sombreados ( 4 )
 A Lua

- És muito magra, muito elegante.

- À nossa!

- A Lua anda atrás de ti.

- Não, eu é que me meto no caminho dela.

- Tens esse direito.

- Sim, porque não?

Ele foi à janela, olhando lá para fora.

 

(...)

 

- Tens os olhos muito brilhantes – disse ela.

- Nunca vi os teus tão grandes.

- Os meus crescem à noite.

Ele seguiu com o dedo as sobrancelhas dela, a cova dos olhos e as faces.

- Pergunto a mim mesmo se vou sonhar esta noite.

- Não – murmurou ela, de olhos fechados – não vamos sonhar.

- Olha! – disse Pete. – A Lua.

Inclinando-se para diante, olharam pela janela.

- Sim.

Rodeada de vincos e grutas de nuvens, a Lua brilhava, fixa.

 

Harold Pinter

de Os anões, Dom Quixote, 2006

foto: D C Lowe

 

Enviado por at a 05-10-2006 (23:46)
Sombreados ( 0 )
 Quelques Jours en Septembre

É um bom filme. O argumento não interessa muito. Interessam as pessoas. As relações entre as pessoas. A poesía só por si não vale nada. Declamar William Blake pode dar gozo ao pior psicopata. Não é fácil conversar. Nem sempre temos algo para dizer mas há sempre alguma coisa que não queremos dizer. Cada ser humano é um mundo. É preciso viajar. Conhecer o outro. A vida vale a pena, apesar de tudo.

Gostei da fotografia. Gostei dos actores. Gostei dos diálogos. Gostei do som. Gostei desta canção:

Ah ! Les voyages
Aux rivages lointains,
Aux rêves incertains,
Que c'est beau, les voyages
Qui effacent au loin
Nos larmes et nos chagrins,
Mon dieu !
Ah ! Les voyages.
Comme vous fûtes sages
De nous donner ces images
Car les voyages,
C'est la vie que l'on fait,
Le destin qu'on refait.
Que c'est beau, les voyages
Et le monde nouveau
Qui s'ouvre à nos cerveaux,
Nous fait voir autrement
Et nous chante comment
La vie vaut bien le coup
Malgré tout !
Ah ! Jeunes gens,
Sachez profiter de vos vingt ans.
Le monde est là.
Ne craignez rien.
Il n'est pas méchant.
Il vous guidera.
Ah ! Les voyages
Qui murissent nos cœurs,
Qui nous ouvrent au bonheur,
Mais que c'est beau, les voyages !
Et lorsque l'on retourne chez soi,
Rien n'est comme autrefois
Car nos yeux ont changé
Et nous sommes étonnés
De voir comme nos soucis
Etaient simples et petits,
Car les voyages
Tournent une page.
Ah ! Les voyages...

 

Enviado por at a 07-10-2006 (03:30)
Sombreados ( 0 )
 É preciso medir tudo

 

É preciso medir as palavras, as frases, a melodia dos versos. É preciso medir o alcance do olhar, a distância até ao outro, a intimidade de um beijo. É preciso medir as paredes do quarto, as portas e as janelas, a altura até ao tecto. É preciso medir a importância do ego, o tamanho do nome, o efeito do medo. É preciso medir tudo. Também é preciso pesar algumas coisas, mas mais vale medir.

 

 

imagem: Liz Cohn

 

 

Enviado por at a 07-10-2006 (20:18)
Sombreados ( 3 )
 Tempos interessantes

É bom acontecer, é bom ter acontecido, ter passado por isso, porque ficou gravado como um alimento incessante de glória e amargura. Mas os tempos interessantes não duram uma vida inteira. Um dia há mais mundo, ou menos, o que vem dar ao mesmo. A paz de espírito não chegou, porque a paz é uma invenção intermitente e o espírito uma hipótese poética que nenhum vivo conhece. Certo é que o tempo passa, passou, é a única maldição infalível, e agora temos que continuar como o outro que dizia tenho que continuar não posso continuar vou continuar.(...)

O medo e a monotonia seguem dentro de momentos.

Pedro Mexia

foto: M Karez

 

Enviado por at a 07-10-2006 (23:32)
Sombreados ( 0 )
 Obituário precoce para uma baga vermelha

"Depois de arrancada, a pequena baga vermelha (será venenosa?) transforma-se. Vai secando, perde o brilho. Vêem-se já algumas rugas e feridas na sua pele. O vermelho passa a um acastanhado baço. Pousada na palma da minha mão, sinto que a baga vive ainda, indiferente ao que lhe acontece — vive e morre ao mesmo tempo, enquanto a cor fatal alastra. E isto é o que a baga me ensina."
 
 
 
Enviado por at a 09-10-2006 (20:40)
Sombreados ( 0 )
 Moscovo

Hoje, esta música entrou por mim adentro. Regressei a Moscovo. Estava escuro. Chovia. Parei na rua Lesnaïa. Vi o corpo dela no chão.

imagem: Yuri I. Pimenov

 "Waiting" (1959), the State Tretyakov Gallery, Moscow

Enviado por at a 09-10-2006 (21:03)
Sombreados ( 1 )
 
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