Atenção: fixem bem este grupo. São perigosos e não se deixam apanhar. Espero que continuem assim, rebeldes e criativos.
A última peça “ A cidade” é muito boa. São 4 actores em palco. Começam por se encontrar num espaço vazio. Um espaço amplo onde as pessoas vagueiam sem comunicar. Dialogam sem conversar. Um espaço que vai sendo ocupado pelas notícias. Uma cidade mediática construída a um ritmo alucinante. Hilariante. Noticias diárias que banalizam a violência e o amor. Angustiante. Pedaços de notícias vão criando uma barreira entre os actores e os espectadores. Asfixiante. Quando a falta de ar é premente, é preciso parar e derrubar o muro. Mas, sem o mundo mediático que espaço resta? Ainda será possível comunicarmos uns com os outros? Estaremos todos irremediavelmente loucos? Como recuperar o eu? Como encontrar o outro?
A representação é excelente. O espaço resulta bem, intimista. A encenação, as luzes e o som são primorosos.
Está prevista mais uma actuação no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, no próximo fim-de-semana.
Ontem vi um programa na televisão sobre apanhadores de cocó. Perguntaram a um profissional com experiência se ele preferia passar a vida a apanhar cocó ou passar 12 horas seguidas a lidar com pessoas – “apanhar cocó”, respondeu sem hesitar.
É um bom filme. O argumento não interessa muito. Interessam as pessoas. As relações entre as pessoas. A poesía só por si não vale nada. Declamar William Blake pode dar gozo ao pior psicopata. Não é fácil conversar. Nem sempre temos algo para dizer mas há sempre alguma coisa que não queremos dizer. Cada ser humano é um mundo. É preciso viajar. Conhecer o outro. A vida vale a pena, apesar de tudo.
Gostei da fotografia. Gostei dos actores. Gostei dos diálogos. Gostei do som. Gostei desta canção:
Ah ! Les voyages Aux rivages lointains, Aux rêves incertains, Que c'est beau, les voyages Qui effacent au loin Nos larmes et nos chagrins, Mon dieu ! Ah ! Les voyages. Comme vous fûtes sages De nous donner ces images Car les voyages, C'est la vie que l'on fait, Le destin qu'on refait. Que c'est beau, les voyages Et le monde nouveau Qui s'ouvre à nos cerveaux, Nous fait voir autrement Et nous chante comment La vie vaut bien le coup Malgré tout ! Ah ! Jeunes gens, Sachez profiter de vos vingt ans. Le monde est là. Ne craignez rien. Il n'est pas méchant. Il vous guidera. Ah ! Les voyages Qui murissent nos cœurs, Qui nous ouvrent au bonheur, Mais que c'est beau, les voyages ! Et lorsque l'on retourne chez soi, Rien n'est comme autrefois Car nos yeux ont changé Et nous sommes étonnés De voir comme nos soucis Etaient simples et petits, Car les voyages Tournent une page. Ah ! Les voyages...
É preciso medir as palavras, as frases, a melodia dos versos. É preciso medir o alcance do olhar, a distância até ao outro, a intimidade de um beijo. É preciso medir as paredes do quarto, as portas e as janelas, a altura até ao tecto. É preciso medir a importância do ego, o tamanho do nome, o efeito do medo. É preciso medir tudo. Também é preciso pesar algumas coisas, mas mais vale medir.
É bom acontecer, é bom ter acontecido, ter passado por isso, porque ficou gravado como um alimento incessante de glória e amargura. Mas os tempos interessantes não duram uma vida inteira. Um dia há mais mundo, ou menos, o que vem dar ao mesmo. A paz de espírito não chegou, porque a paz é uma invenção intermitente e o espírito uma hipótese poética que nenhum vivo conhece. Certo é que o tempo passa, passou, é a única maldição infalível, e agora temos que continuar como o outro que dizia tenho que continuar não posso continuar vou continuar.(...)
"Depois de arrancada, a pequena baga vermelha (será venenosa?) transforma-se. Vai secando, perde o brilho. Vêem-se já algumas rugas e feridas na sua pele. O vermelho passa a um acastanhado baço. Pousada na palma da minha mão, sinto que a baga vive ainda, indiferente ao que lhe acontece — vive e morre ao mesmo tempo, enquanto a cor fatal alastra. E isto é o que a baga me ensina."