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Sombras Errantes
 
 Poema obsceno

 

Façam a festa
cantem e dancem

que eu faço o poema duro

o poema-murro

sujo
como a miséria brasileira 

Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina

Estação Primeira de Mangueira Salgueiro

gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão

este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
- e espreitam

 

 

 

 Ferreira Gullar

 

foto

 

Enviado por at a 01-05-2005 (18:33)
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 O Vinho e a Lira

A oriente sou toda lira

exacta dérmica solar

biografo-me a desenho à pena

com a tinta da estrela polar.

 

À maternidade da pedra

restituo a casa a levante

e o teu sorriso é navegável

sem rápidos de ciúme e sangue.

 

Por esse lado tive infância

e derreto a neve das fotografias

destapando o quebra-luz

de uma tépida estampa de tias.

 

A meu oriente de polido mogno

meu verso tem cadeiras e o habito

com amigos e respiram os móveis

um sossego de folhas de eucalipto.

 

A sul se eriçam as crinas

se ateiam os cascos do meu verso equino

druídica me visto de visco lunar

matéria friável de cânhamo e vinho

 

essa a minha álea de longifólias

acácias à velocidade do crime

por ela em teu corpo linha de comboio

me deito à espera que o amor se aproxime

 

esse o meu jusante de minério e Tirso

esse o meu amigo o que não conheço

essa a minha casa a que não habito

minha alguma estrela meu nenhum endereço.

 

 

 

Natália Correia

 

imagem:  Arnold Böcklin  

Enviado por at a 01-05-2005 (22:23)
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 La ciudad oculta

 
 
 

 

 

Enviado por at a 03-05-2005 (10:47)
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 De um, de dois, de todos

 

 

Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher e o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor

E o furtivo transeunte e o amor confundido

 

Paul Eluard

imagem: Salvador Dalí

Enviado por at a 05-05-2005 (00:50)
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 Certitude


Si je te parle c'est pour mieux t'entendre
Si je t'entends je suis sûr de te comprendre

Si tu souris c'est pour mieux m'envahir
Si tu souris je vois le monde entier

Si je t'étreins c'est pour me continuer
Si nous vivons tout sera à plaisir

Si je te quitte nous nous souviendrons
En te quittant nous nous retrouverons

 

Paul Éluard

imagem: Klimt

Enviado por at a 05-05-2005 (16:14)
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 Não há quem nos desate?

Goya

Porque esticam tanto as cordas, pai?

 

Aurelino Costa

Na terra de Genoveva, edições do buraco, 2005

imagem: Goya

 

 

Enviado por at a 07-05-2005 (11:45)
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 O declínio da mentira

Neste delicioso livrinho, Oscar Wilde defende que a arte deve rejeitar a sinceridade, a fidelidade e a exactidão, e optar pela máscara e pela mentira; a arte é a realidade e a vida o espelho. Escrito sob a forma de uma conversa entre dois amigos, Cyril e Vivian, na biblioteca de uma casa de campo em Nottighamshire. No final, Vivian resume as doutrinas da nova estética:

 

 

 

 

“A Arte não exprime mais nada senão a si própria. Possui vida independente, exactamente como o pensamento, e desenvolve-se segundo coordenadas autónomas. Não tem que ser necessariamente realista na época do realismo, nem espiritual nos períodos de fé (…) Por vezes regride ao passado e entrega-se ao revivalismo de algumas formas antigas(…) Outras vezes antecipa-se em absoluto ao seu tempo, produzindo num século obras que vão levar outro século a ser entendidas e apreciadas. Em nenhuma circunstância deve reproduzir a sua época. Passar da arte de um tempo ao próprio tempo é o grande erro em que todos os historiadores incorrem.

A segunda doutrina é esta: toda a má arte advoga o regresso à Vida e à Natureza, elevando-as à categoria de ideais. A Vida e a Natureza podem por vezes ser usadas como parte dos materiais brutos da Arte, mas antes de oferecerem qualquer real utilidade nesse plano, devem ser transformadas até se converterem em convenções artísticas. No momento em que a arte abdica dos seus meios imaginativos, abdica de tudo(…) As únicas coisas belas são aquelas que não nos concernem(…)

A terceira doutrina postula que a imitação da Arte pela Vida vai muito mais longe do que a da Vida pela Arte. Resulta isto não só do instinto imitativo da vida, mas de que o objectivo consciente da Vida é encontrar expressão, oferecendo-lhe a Arte belas formas através das quais pode realizar essa energia (…)

Segue-se como corolário que a Natureza exterior também imita a Arte. Os únicos efeitos que nos pode mostrar, vimo-los sempre antes na poesia ou na pintura. É este o segredo do encanto da Natureza, e também a explicação da sua debilidade.

A derradeira revelação é que a Mentira, o acto de contar belas coisas não verdadeiras, é o propósito exclusivo da Arte. Mas julgo ter dito já o suficiente a este respeito.

 

E agora vamos sair para o terraço, onde “o pavão branco de leite inclina a cabeça como um fantasma” e Vénus, no céu, “banha de prata o crepúsculo”. Ao anoitecer, a Natureza toma formosos aspectos muito sugestivos e com o seu encanto, lembrando-se talvez da principal função que lhe é cometida: a de ilustrar citações de poetas. Vem! Já falámos bastante.”

 

 

Oscar Wilde

 

em O declínio da mentira, Vega, 2001

Enviado por at a 08-05-2005 (16:14)
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 Far Cry

Espoliados / Madrid 2003

 

 

(…)Paulo Nozolino expõe 83 fotografias que acumulou ao longo de três décadas de carreira. Todas a preto e branco, todas escuras, todas a abusar do grão. E, apesar de não haver nenhum vínculo espacial - como se não pertencessem a lado algum -, retratam pessoas, cidades e espaços de vários pontos do mundo, em especial, do mundo árabe. Abre-se uma excepção para as fotografias de Auschwitz, nas quais o tempo e o lugar são precisos e o ponto de partida de toda a exposição. O resultado é uma narrativa nova da sua obra, onde, pela primeira vez, são reunidos trabalhos de épocas e séries diferentes."

 

 

"O Choro é Sempre um Lugar Incerto"

Rui Nunes

 

"Sinto um grito dentro de mim e esse grito é abafado. Acaba por ser abafado por tudo aquilo que está à minha volta. E a consequência é talvez um choro"

 

Paulo Nozolino

Mil Folhas, 07 de Maio de 2005, Público

 

 

Uma exposição a não perder!

no Museu de Serralves até 10-07-2005

 

 

 

Enviado por at a 09-05-2005 (14:32)
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 The Circle Game


Estar contigo

aqui neste quarto

 

é como tactear um espelho

cujo vidro derreteu

até à consistência

de gelatina

 

tu recusas ser

(e eu)

um reflexo exacto, mas

não te afastas do vidro,

desliga.

 

De qualquer maneira, a verdade

é que puseram

imensos espelhos aqui

(lascados, às três pancadas)

neste quarto com a sua janela altaneira

e o roupeiro vazio; até mesmo

por trás da porta

está um.

 

Há gente no quarto ao lado,

discutem, abrem e fecham gavetas

(as paredes são finas)

 

Tu olhas para além de mim, ouves

o que dizem, talvez, ou

contemplas

o teu próprio reflexo algures

atrás da minha cabeça,

por cima do meu ombro

 

Voltas-te, e a cama

cede por baixo, perdes o ângulo

 

há alguém no quarto ao lado

 

há sempre

 

(o teu rosto

distante, escuta)

 

alguém no quarto ao lado.

 

 

Margaret Atwood

 

imagem: Magritte

 

tradução: at

versão original

 

 

Enviado por at a 09-05-2005 (22:56)
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 A Estrada Branca

Hoje na 2, poemas de José Tolentino Mendoça (do livro A Estrada Branca, Assírio & Alvim, 2005) pela voz da ALC com música de Cat Power ( do album You Are Free)

 

Lindo!

 

 

 

 

 

 

 

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

 

 

José Tolentino Mendonça

Enviado por at a 10-05-2005 (22:01)
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 Em destaque

O nº 26  da sequência Ângulos Ausentes de Juraan Vink .

 

Enviado por at a 11-05-2005 (00:06)
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 Nuvens

 

 

A metafísica será talvez

uma indisposição que se quer passageira.

 

Porém, eu continuo a inquietar-me

com as nuvens que são arrastadas,

 

violentamente arrastadas, na direcção sudeste,

filtrando a luz do sol em obsessiva correria.

 

Luís Quintais

Foto: José Marafona

Enviado por at a 13-05-2005 (00:29)
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 Em destaque (2)

Ângulos Ausentes- a sequência completa.

 

Enviado por at a 13-05-2005 (13:27)
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 Nighthawks

"The austere beauty of Hopper's Nightawks is due to the artist understanding of the expressive possibilities of light playing upon simplified shapes. Nihthawks is an unforgettable image of an all-night diner in which a short-order cook and three customers, all of them lost in their own thoughts, have gathered(...)"

in The Art Institute of Chicago - Pocketguide.

Enviado por at a 16-05-2005 (15:50)
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 The Naked Truth

             

 

Klimt, Schiele, Kokoschka and Other Scandals


em exposição no Museu Leopold em Viena, Áustria


13 Maio 2005 – 22 Agosto 2005

Enviado por at a 21-05-2005 (16:14)
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