“Na praça General Osório sentou-se num banco. Um velho curvado defecava ao lado de uma árvore. Guedes notou que da janela de um apartamento uma mulher observava o velho com uma expressão de repugnância. Mais tarde ela vai trazer o seu cocker spaniel para cagar na praça, pensou o tira, e não quer misturar as duas merdas.”
"Augusto, o andarilho, cujo nome verdadeiro é Epifânio, mora num sobrado em cima de uma chapelaria feminina, na rua Sete de Setembro, no centro da cidade, e anda nas ruas o dia inteiro e parte da noite. Acredita que ao caminhar pensa melhor, encontra soluções para os problemas; solvitur ambulando, diz para seus botões.
(…)
Agora ele é escritor e andarilho. Assim, quando não está escrevendo - ou ensinando as putas a ler -, ele caminha pelas ruas. Dia e noite, anda nas ruas do Rio de Janeiro."
Rubem Fonseca é um dos meus escritores preferidos. Os livros que li fascinaram-me. Não li todos, mas tenho pena. O convite é irresistível. Embora até lá.
Saul Bellow morreu ontem, aos 89 anos. Ganhou o prémio Nobel da literatura em 1976. É um dos mais talentosos escritores da modernidade com um estilo muito particular. Uma escrita cativante. Aborda temas universais com intimismo, melancolia e ironia. Manteve até ao fim uma lucidez impressionante.
Li Herzog e Ravelstein. Gostei dos dois. Herzog marcou-me profundamente. Já o li há um bom par de anos. Infelizmente, nessa altura, ainda não sublinhava. Começa assim :
Posso não estar bom da cabeça, mas tudo me parece claro, pensou Moisés Herzog.
Algumas pessoas julgavam-no louco, e durante um certo tempo ele próprio duvidou da sua integridade. mas agora, embora o seu comportamento fosse ainda estranho, sentia-se confiante, alegre, clarividente, e forte. Um feitiço o envolvera, e começara a escrever cartas a toda a gente. Estava tão excitado com estas cartas que desde o fim de Junho andava de um lado para o outro com uma mala cheia de papéis. Levara essa mala para Nova Iorque para Martha’s Vineyard, mas regressou de Vineyard imediatamente; dois dias mais tarde voou para Chicago, e de Chicago dirigiu-se para uma aldeia na zona oriental de Massachusetts. Escondido no campo, escreveu incessante, fanaticamente, para os jornais, aos homens públicos, a amigos e familiares e até aos mortos, aos seus próprios mortos obscuros, e finalmente aos mortos famosos.
No dia seguinte, de manhã, fui trabalhar no filme do meu irmão José. Enquanto remontava o filme, pensava até que ponto eu estaria fortalecendo o poder e favorecendo a ambição dos evangelistas. Para mim, todos os evangelistas eram espertalhões oportunistas, como o meu irmão, falsos como os sacerdotes de todas as religiões existentes. A religião era um grande negócio dirigido por estelionatários. O homem moderno não precisava de Deus, precisava de uma ética, de amor, de tolerância… Que merda, eu estava inventando uma religião nova, inventando a roda. Fodam-se.
Exposição de desenho e pintura sobre papel, “Anos 60 e 70: Ana Hatherly”, mostra de trabalhos inéditos, em pequeno formato, – muitos são feitos em bilhetes postais dos correios ingleses –, revelando uma faceta desconhecida da extensa obra visual de Ana Hatherly. Realizados, na sua grande maioria, entre a segunda metade da década de 60 e os primeiros anos da década de 70, são anteriores à adopção do ‘preto e branco’ como regra criativa, constituindo igualmente um sofisticado eco da eclética cultura visual britânica pós-pop. Estes desenhos e pinturas sobre papel não foram feitos para serem expostos e apenas alguns deles se encontram reproduzidos em livros e catálogos.