" En ciertas ocasiones, después de ver pinturas de Beckmann, he sentido la tentación de incorporar en mis relatos situaciones y personajes cuya simple proximidad pudiera ser considerada como un escándalo; establecer en un rapto de bravura los hilos necesarios para poner en movimiento toda clase de incidentes incompatibles hasta formar con ellos una trama. Soñar con escribir una novela ahíta de contradicciones, la mayoría sólo aparentes; crear de cuando en cuando zonas de penumbra, fisuras profundas, oquedades abismales."
O meu sangue transformou-se em tinta. Era preciso impedir a todo o custo essa nojeira. Estou envenenado até aos ossos. Cantava no escuro, e agora é o canto que me mete medo. Mais ainda: estou leproso. Sabem aquelas manchas de humidade que parecem um perfil? Não sei que encanto da lepra engana o mundo e o autoriza a beijar-me. Pior para ele! As consequências não me dizem respeito. Nunca exibi senão chagas. Fala-se de graciosa fantasia: a culpa é minha. É loucura alguém exibir-se inutilmente.
A minha desordem empilha-se até ao céu. Os que eu amei existiam pendurados do céu por um elástico. Voltasse eu a cabeça… e já lá não estavam.
De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia…, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.
Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos.
Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade.
Morte, tristeza, saudade, antigos rancores, dúvidas, medos e dor. É este o mundo de Pedro Páramo, a excepcional novela de Juan Rulfo, apresentada pelos filhos do autor em Guadalajara.
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O cisne caça-se na Alemanha, pátria de Lohengrin. Serve de alvo ao colarinho postiço nos mijaróis. Nos lagos, é confundido com as flores, e as pessoas admiram então a sua forma de barco; de resto, é morto implacavelmente para obrigá-lo ao canto dito do cisne. A pintura usa de bom grado o cisne, mas acabou-se-nos a pintura. Do cisne, quando tem tempo de transformar-se em mulher antes de morrer, a carne é menos dura que no caso contrário: os caçadores estimam-na então muito mais. Sob o nome de eider, os cisnes contribuíram para o edredon. E não lhes calha mal. Chama-se homens-cisnes ou homens incisnes ou insignes aos homens que têm o pescoço tão comprido como Fénelon, chamado o Cisne de Cambrai. Etc.
Quase todas as acções no sentido de acabar com a miséria humana partem de ONG. Algum bem se tem feito, aqui e ali, mas o objectivo de erradicar a pobreza do mundo está ainda muito longe de ser atingido. As ONG trabalham na corda bamba.