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Sombreados  
 O Alfabeto no Parque

Eu sei escrever.

Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,

composição escolar narrando o belo passeio

à fazenda da vovó que nunca existiu

porque ela era pobre como Jó.

Mas escrevo também coisas inexplicáveis:

quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.

Vai-te de mim, tristeza, sino gago,

pessoas dizendo entre soluços:

“não aguento mais”.

Moro num lugar chamado globo terrestre

onde se chora mais

que o volume das águas denominadas mar,

para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.

Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.

Imagine que uma dita roda-gigante

propicia passeios e vertigens entre

luzes, música, namorados em êxtase.

Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar

e dormir com meu marido no quartinho

de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,

entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.

Levas tudo a peito, diz a minha mãe,

dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.

A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:

“cinema é gente passando.

Viu uma vez, viu todas”.

Com perdão da palavra, quero cair na vida.

Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...

Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.

 

 

Adélia Prado

em Com Licença Poética - antologia, livros cotovia, 2003

foto: Tom Stoddart Archive

Enviado por at a 21-06-2006 (00:50)

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