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Sombreados  
 dois diários

Nunca fui muito de escrever mas a verdade é que durante o ano de 1977, escrevi um diário. Durou dois meses. Qual não foi o meu espanto quando descobri que um tal Bernfried Järvi, escreveu ao mesmo tempo um diário como o meu.

 

 

Deito-me e há um violoncelo dentro da minha cabeça

Mais ninguém ouve. Só eu sei quem me está a tocar.

*

Saímos do liceu às seis da tarde. Foram todos para casa de autocarro. Eu fui a pé a ver se me inspirava. Como não sei escrever poemas, fumei um maço de cigarros.

*

Ler um bom livro é a pior coisa que me pode acontecer. Quando um livro é  mesmo bom, desapareço na minha insignificância.

*

Manhã cedo. Desconheço o meu rosto no espelho. Fecho os olhos, sombreio as pálpebras e corro para apanhar o autocarro.

*

Que me resta fazer? Tento dormir. Mas mergulhar no sono não me faz esquecer.

*

Percorria a rua Miguel Bombarda, ao fim da tarde, quando um telhado me caiu em cima. Uma nuvem de pássaros cobriu o céu.  Sobrevivi às telhas. Difícil mesmo foi limpar as cagadelas.

*

No instante em que escrevo isto, estou à espera. Estou há tanto tempo à espera que até me esqueço. Estou muito longe. Não espero mais por mim.

*

Não me lembro do que sonhei a noite passada. E isso é mau. Porque era certamente um sonho bom. Os sonhos maus continuam vivos a manhã inteira.

*
Atravesso a rua com um saco carregado de nuvens. Se o saco tivesse maças, ou pêssegos ou laranjas sempre podia encher a barriga.

*

Uma borboleta voava e pousava, voava e pousava. Fim.

 

 

Outubro/Novembro de 1977

 

 

Bernfried Järvi, escreveu pelo menos dois poemas e o diário dele não acaba aqui.


Enviado por at a 28-11-2008 (00:00)

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