Nunca fui muito de escrever mas a verdade é que durante o ano de 1977, escrevi um diário. Durou dois meses. Qual não foi o meu espanto quando descobri que um tal Bernfried Järvi, escreveu ao mesmo tempo um diário como o meu.
Deito-me e há um violoncelo dentro da minha cabeça
Mais ninguém ouve. Só eu sei quem me está a tocar.
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Saímos do liceu às seis da tarde. Foram todos para casa de autocarro. Eu fui a pé a ver se me inspirava. Como não sei escrever poemas, fumei um maço de cigarros.
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Ler um bom livro é a pior coisa que me pode acontecer. Quando um livro é mesmo bom, desapareço na minha insignificância.
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Manhã cedo. Desconheço o meu rosto no espelho. Fecho os olhos, sombreio as pálpebras e corro para apanhar o autocarro.
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Que me resta fazer? Tento dormir. Mas mergulhar no sono não me faz esquecer.
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Percorria a rua Miguel Bombarda, ao fim da tarde, quando um telhado me caiu em cima. Uma nuvem de pássaros cobriu o céu. Sobrevivi às telhas. Difícil mesmo foi limpar as cagadelas.
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No instante em que escrevo isto, estou à espera. Estou há tanto tempo à espera que até me esqueço. Estou muito longe. Não espero mais por mim.
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Não me lembro do que sonhei a noite passada. E isso é mau. Porque era certamente um sonho bom. Os sonhos maus continuam vivos a manhã inteira.
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Atravesso a rua com um saco carregado de nuvens. Se o saco tivesse maças, ou pêssegos ou laranjas sempre podia encher a barriga.
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Uma borboleta voava e pousava, voava e pousava. Fim.
Outubro/Novembro de 1977
Bernfried Järvi, escreveu pelo menos dois poemas e o diário dele não acaba aqui.
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