coisas do espírito

"Subi ao primeiro andar, mas não me sentei logo à secretária, através da porta aberta do quarto, que tem nove metros de comprimento e, a uma distância de oito ou nove metros, observei a secretária principalmente para ver se nela tudo estava em ordem. Sim, está tudo em ordem em cima da secretária, disse para mim. Tudo. Imóvel e com toda a honestidade examinei tudo o que estava sobre ela. Fiquei assim a observar a secretária durante tanto tempo que, por assim dizer, até me vi por detrás, sentado, curvando-me para escrever como é próprio da minha doença. Vi que tinha a posição de um doente, e disse para mim, a verdade é que não sou saudável, sou mesmo doente, dos pés à cabeça. Continuei, enquanto aí estás sentado dessa maneira, já podias ter escrito algumas páginas sobre Mendelssohn Bartholdy, talvez umas dez ou onze, é assim que me sento quando escrevi dez ou doze páginas. Não me mexi e observei a posição das minhas costas. Pensei, são as costas do meu avô materno, cerca de um ano antes da sua morte. Tenho as mesmas costas, disse para mim. Imóvel, comparei as minhas costas com as do meu avô e nesse momento pensei numa certa fotografia que tinha sido tirada só um ano antes da sua morte. O homem que se dedica às coisas do espírito de repente só consegue ter esta posição doentia das costas e morre pouco depois. Um ano depois, pensei."
Thomas Bernhard
Betão, Edições 70, 1989
Enviado por at a 06-11-2007 (22:22)
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